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Mostrando postagens de agosto, 2025

A Arte como Comunicação e Esconderijo: Freud, Lacan e Winnicott em Perspectiva Psicanalítica

  A Arte como Comunicação e Esconderijo: Freud, Lacan e Winnicott em Perspectiva Psicanalítica Introdução A produção artística ocupa um lugar singular na experiência humana. Ao mesmo tempo em que é expressão subjetiva, ela se constitui como um modo de ocultamento. O artista deseja se comunicar , mas também se esconder em sua obra. Essa tensão dialética, entre revelar e velar, é uma marca essencial da criação. Em psicanálise, autores como Freud, Lacan e Winnicott abordaram, cada um a seu modo, essa dinâmica presente no ato criativo. Freud: A Arte como Confissão Velada Exegese teórica : Em O Escritor Criativo e o Devaneio (1908), Freud afirma que o artista transforma suas fantasias inconscientes em forma estética. Ao fazer isso, oferece ao público um conteúdo que toca seus próprios desejos, mas o faz de modo disfarçado, protegendo-se de críticas ou de uma exposição direta de sua vida psíquica. A obra é, portanto, uma confissão protegida pelo símbolo . Exemplo clínico : Em an...

A vida adulta como máscara do infantil: entre a necessidade social e o retorno do recalcado

  A vida adulta como máscara do infantil: entre a necessidade social e o retorno do recalcado Introdução Com frequência, a vida adulta é representada como a etapa da maturidade, da responsabilidade e da racionalidade. No entanto, a psicanálise nos ensina que o infantil não desaparece ; ele permanece como uma dimensão estrutural do sujeito. Assim, a vida adulta pode ser compreendida como uma máscara que encobre, mas não elimina, o infantil que habita cada um de nós. 1. O infantil como estrutura permanente Exegese psicanalítica Para Freud (1905, 1915), o infantil não é apenas uma fase transitória do desenvolvimento, mas algo que se conserva no inconsciente. Desejos, fantasias e marcas da primeira infância permanecem vivos, ainda que recalcados. O inconsciente é atemporal: nele, o passado não deixa de existir, mas se atualiza em novas formas. Aplicação clínica Em análise, muitas vezes o adulto “sério” e “equilibrado” revela, em lapsos, sonhos ou sintomas, o infantil que insis...

Nem Toda Projeção é Defensiva: Uma Leitura Psicanalítica

  Nem Toda Projeção é Defensiva: Uma Leitura Psicanalítica Introdução Na tradição psicanalítica, o termo projeção costuma ser rapidamente associado à defesa: aquilo que o sujeito não suporta em si, ele localiza no outro. Contudo, essa compreensão, embora correta em parte, é reduzida se não ampliarmos o campo de significação do conceito. A projeção, desde Freud até os pós-freudianos, não é apenas uma defesa, mas uma função estruturante do psiquismo, com desdobramentos criativos e constitutivos. 1. A Projeção como Função Constitutiva Exegese teórica: Freud (1895) já apontava que, nos primórdios da vida psíquica, o bebê não distingue claramente o dentro do fora. Em seus primeiros movimentos psíquicos, atribui ao objeto externo as sensações internas . Klein (1946) ampliou essa visão ao formular a noção de identificação projetiva , pela qual o bebê deposita partes de si no objeto, organizando a realidade. Exemplo clínico: Em supervisão, observamos pacientes que descrevem o mu...

Mudar é trocar de pele por dentro

  Mudar é trocar de pele por dentro “Mudar é trocar de pele por dentro”. Essa frase soa quase como um sussurro da alma. Ela nos convida a pensar que as transformações mais verdadeiras não são aquelas que aparecem do lado de fora, mas as que nos atravessam por dentro , nas camadas mais íntimas do nosso ser. Por que é tão difícil mudar? Na clínica, percebo que o desejo de mudar está sempre acompanhado de resistência. O sujeito quer sair do sofrimento, mas ao mesmo tempo se agarra a ele. Por quê? Porque até mesmo o que dói oferece uma espécie de segurança. É o já conhecido. Trocar de pele por dentro exige coragem: é abrir mão de velhas formas de se defender, de narrativas repetidas, de identidades que já não cabem. A experiência clínica Certa vez, uma paciente que sempre retornava aos mesmos conflitos familiares, repetindo as mesmas histórias, disse em sessão: “Sinto como se uma parte de mim estivesse sendo arrancada, mas ao mesmo tempo é como se eu pudesse respirar melhor.”...

Da Empatia à Conexão: uma crítica psicanalítica

  Da Empatia à Conexão: uma crítica psicanalítica Resumo A noção de empatia é frequentemente entendida como a capacidade de “se colocar no lugar do outro”. Contudo, sob a ótica psicanalítica, tal concepção mostra-se problemática, pois implica a possibilidade de suspensão da subjetividade, algo impossível ao sujeito atravessado pela linguagem e pelo inconsciente. Este artigo propõe uma crítica ao conceito tradicional de empatia e sugere, em substituição, os termos conexão e sintonia , que permitem uma abordagem mais ética e coerente com a escuta psicanalítica. Palavras-chave: Empatia. Conexão. Sintonia. Psicanálise. Introdução Na cultura contemporânea, a empatia é exaltada como virtude essencial. Comumente definida como a capacidade de “entrar no lugar do outro” ou “sentir o que o outro sente”, tornou-se atributo moralmente valorizado. Entretanto, à luz da psicanálise, essa definição apresenta impasses teóricos e clínicos. A questão que se coloca é: é possível realmente es...

A Síndrome do Protagonismo e a Psiquiatrização da Psicanálise

 : A Síndrome do Protagonismo e a Psiquiatrização da Psicanálise Por Elielberth Falcão Introdução Nos últimos anos, tenho observado um fenômeno inquietante entre alguns psicanalistas: uma tendência crescente à psiquiatrização da Psicanálise , marcada pela ênfase excessiva em diagnósticos. O que poderia parecer uma simples tentativa de “diálogo” com a ciência médica, na verdade, esconde algo mais profundo: um sintoma de natureza narcísica . Ao tentar enquadrar o sujeito em rótulos diagnósticos, esses psicanalistas parecem buscar reconhecimento científico e legitimidade institucional, mas ao custo de um desvio fundamental: a perda do núcleo clínico da Psicanálise , que não é a classificação, mas o encontro singular com o inconsciente . Exegese da Questão Sigmund Freud (1926), em A questão da análise leiga , já alertava para o risco da medicina querer monopolizar o campo da Psicanálise, transformando-a em um apêndice da psiquiatria. Ao mesmo tempo, deixou claro que a Psicaná...

Entre o medo e o meio: a descoberta de si como sujeito

  Entre o medo e o meio: a descoberta de si como sujeito Recentemente, numa conversa com um amigo de longa data, ouvi dele a seguinte frase: “Você mudou bastante” . Ao que respondi: “Talvez eu não tenha mudado, mas esteja apenas me descobrindo” . Essa breve troca de palavras revelou não apenas uma reflexão pessoal, mas um ponto de grande relevância clínica: afinal, mudamos ou nos descobrimos? O sujeito entre o meio e o medo Há uma máxima muito repetida: “somos frutos do meio” . Na psicanálise, é inegável que a constituição subjetiva se dá dentro de um contexto relacional — a família, a cultura, a religião, a escola. Freud (1914), ao falar do narcisismo , mostra como o eu nasce em meio a investimentos que vêm de fora, que moldam e alimentam sua organização psíquica. Winnicott (1960) também reforça a ideia de que o ambiente é condição de possibilidade para que o sujeito possa existir de modo verdadeiro. Entretanto, no diálogo com meu amigo, arrisquei um deslocamento: “Somos fru...

Anamnese de mim: o EU na 3ª pessoa

 🖋️ Anamnese de mim: o EU na 3ª pessoa Por Elielberth Falcão “Tudo o que digo de mim já me escapa. Porque quando digo, já não sou eu — sou o que disse.” — Roland Barthes   A inspiração para este artigo nasceu de forma inusitada. Estava na academia, revisitando mentalmente os apontamentos da aula anterior, quando uma frase da professora voltou à minha consciência com força: “É importante que o sujeito aprenda a se analisar em terceira pessoa.” Estávamos na disciplina de Psicologia do Desenvolvimento: Infância e Adolescência , na Universidade UNIGRANRIO-Afya, Campus Caxias-RJ. Na hora, compreendi que aquilo ultrapassava a ideia clássica de autoanálise . Era algo mais profundo, mais deslocado, mais instigante. Pensei comigo: “Nossa, que loucura… é como se o sujeito se olhasse de fora, como se fosse dito por um outro.” A frase ficou ressoando. E foi assim, entre um exercício e outro, que surgiu a vontade de escrever este texto — uma tentativa de descrever essa experiência ...

O analista não tem a chave, mas ilumina o caminho

"Quanto menos o analista 'sabe', mais o analisando pode descobrir que sempre soube." O analista não tem a chave, mas ilumina o caminho Introdução Na clínica psicanalítica, o saber não está com o analista. Lacan denominou isso de “sujeito suposto saber” : o paciente acredita que o analista sabe algo sobre ele — e é essa suposição que sustenta a transferência e a busca. Na verdade, quem sabe é o próprio analisando, mas ele não sabe que sabe . Seu saber está recalcado, escondido nas dobras do inconsciente. O papel do analista não é fornecer respostas, mas criar condições para que o sujeito encontre aquilo que já está nele. O analista não possui a chave do inconsciente , mas segura uma “lanterna” capaz de iluminar o caminho para que o paciente a encontre por si mesmo. Exegese psicanalítica do conceito Jacques Lacan (1964) afirmou: “O analista é aquele que sabe que não sabe, e é justamente este não saber que sustenta a análise.” No Seminário 11 , Lacan mostra ...

Fracasso e Sucesso: Uma Leitura Psicanalítica entre a Desistência e a Queda

Fracasso e Sucesso: Uma Leitura Psicanalítica entre a Desistência e a Queda Por Elielberth Falcão Em minha prática clínica ao longo dos anos, tenho refletido sobre o modo como o sujeito nomeia e organiza suas experiências sob os rótulos de "fracasso" e "sucesso".  A escuta atenta das narrativas revela que aquilo que culturalmente chamamos de "fracasso", na verdade, não é senão um movimento de desistência subjetiva — um abandono do desejo, da espera ou daquilo que se esperava encontrar no Outro.  O "fracasso", nesse sentido, não se sustenta como uma categoria real, mas como uma interpretação ressentida da interrupção de um processo simbólico. O sujeito não fracassa — ele desiste. A desistência é o que se observa quando, diante da ausência do retorno imaginado, ele cede seu desejo, retira seu investimento e se posiciona como vítima de um destino que o frustrou.  Este movimento é interno, estruturalmente psíquico, e não fruto das contingências exter...

OCEANO/Djavan/Música - Uma Análise Psicanalítica da Paixão e da Falta

Oceano de Djavan: OCEANO/Djavan/Música  Uma Análise Psicanalítica da Paixão e da Falta Por: Elielberth Falcão Introdução: A música 'Oceano' de Djavan, com sua melodia envolvente e letra poética, oferece um terreno fértil para uma análise psicanalítica.  As declarações do eu-lírico, repletas de anseios, perdas e dependência afetiva, podem ser interpretadas como manifestações de conteúdos recalcados e dinâmicas inconscientes. Abordaremos essa canção sob as lentes de Sigmund Freud e Jacques Lacan, buscando desvendar as camadas psíquicas que permeiam a experiência do amor e da falta. A Letra e a Experiência da Perda e Solidão Letra: Assim que o dia amanheceu lá No mar alto da paixão Dava pra ver o tempo ruir Cadê você? Que solidão! Esquecera de mim Enfim, de tudo o que há na terra Não há nada em lugar nenhum... Que vá crescer sem você chegar Longe de ti, tudo parou Ninguém sabe o que eu sofri ... Amar é um deserto e seus temores Vida que vai na sela dessas dores Não sabe voltar, m...