A Síndrome do Protagonismo e a Psiquiatrização da Psicanálise
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A Síndrome do Protagonismo e a Psiquiatrização da Psicanálise
Por Elielberth Falcão
Introdução
Nos últimos anos, tenho observado um fenômeno inquietante entre alguns psicanalistas: uma tendência crescente à psiquiatrização da Psicanálise, marcada pela ênfase excessiva em diagnósticos. O que poderia parecer uma simples tentativa de “diálogo” com a ciência médica, na verdade, esconde algo mais profundo: um sintoma de natureza narcísica.
Ao tentar enquadrar o sujeito em rótulos diagnósticos, esses psicanalistas parecem buscar reconhecimento científico e legitimidade institucional, mas ao custo de um desvio fundamental: a perda do núcleo clínico da Psicanálise, que não é a classificação, mas o encontro singular com o inconsciente.
Exegese da Questão
Sigmund Freud (1926), em A questão da análise leiga, já alertava para o risco da medicina querer monopolizar o campo da Psicanálise, transformando-a em um apêndice da psiquiatria. Ao mesmo tempo, deixou claro que a Psicanálise possui seu próprio objeto: o inconsciente e suas formações.
Quando o analista abandona esse objeto em favor de diagnósticos, corre o risco de reduzir o sujeito ao que Lacan chamaria de um "significante mestre": um rótulo, um nome que encerra a multiplicidade do desejo. Nesse gesto, não apenas a clínica é empobrecida, mas também o lugar do psicanalista é contaminado por uma síndrome do protagonismo: a ilusão de que, ao diagnosticar, ele se torna autoridade científica incontestável.
Dinâmica Clínica
Em uma supervisão, uma candidata à analista apresentou o caso de uma jovem que se queixava de ansiedade intensa e episódios de pânico. O primeiro movimento da candidata foi buscar manuais de diagnóstico e tentar classificá-la em termos psiquiátricos: “Trata-se de um Transtorno de Ansiedade Generalizada ou de Pânico?”.
No entanto, ao escutarmos o material, ficou evidente que o sintoma não se deixava reduzir a um manual. A paciente narrava que suas crises surgiam sempre em momentos em que precisava “se expor” — falar em público, apresentar trabalhos ou até mesmo se posicionar nas relações afetivas.
Se tivéssemos parado no diagnóstico, o tratamento se limitaria a técnicas de controle da ansiedade. Mas a escuta psicanalítica mostrou que a questão central era outra: o medo de ser vista. O pânico era uma defesa contra a angústia de se colocar no campo do desejo do Outro.
Essa vinheta ilustra como a insistência no diagnóstico pode ofuscar o verdadeiro campo clínico: a singularidade do sujeito.
Crítica e Reflexão
A psicanálise não nasceu para competir com a medicina, mas para inaugurar uma escuta radicalmente nova. Como afirma Birman (1994), “o analista não trabalha com doenças, mas com sujeitos”.
Transformar a psicanálise em mera “técnica diagnóstica” é não apenas um equívoco, mas também uma tentativa de protagonismo narcísico: ser reconhecido pela ciência, mesmo que à custa da perda da essência clínica da análise.
Conclusão
A “moda dos diagnósticos” entre psicanalistas não é sinal de avanço, mas de retração clínica. É um sintoma coletivo, que denuncia a dificuldade de sustentar a posição analítica no mundo contemporâneo. A psicanálise não precisa se psiquiatrizar para ser legítima: sua legitimidade está na escuta do inconsciente.
A tarefa do analista não é dar nomes, mas dar lugar. Não é classificar, mas escutar. Não é protagonizar, mas sustentar o silêncio que possibilita ao sujeito falar.
Referências
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BIRMAN, J. Psicanálise e Psiquiatria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
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FREUD, S. (1926). A questão da análise leiga. In: Obras Completas, v. XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Sobre o Autor
Elielberth Falcão é psicanalista clínico, didata e professor de Psicanálise. É autor do livro Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos (Editora Santorini) e Narcisismo num Compêndio Clínico. Atua como docente em cursos de formação psicanalítica, pesquisador das relações entre Psicanálise, Religião e Cultura, além de lecionar disciplinas ligadas à Psicanálise Contemporânea e aos pós-freudianos. Atualmente é professor em institutos de formação psicanalítica e cursa Psicologia na Universidade Unigranrio.
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