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Mostrando postagens de setembro, 2025

A repetição nunca se move no mesmo lugar

  A repetição nunca se move no mesmo lugar Introdução A noção de repetição tem sido objeto de reflexão tanto na filosofia quanto na psicanálise. De Kierkegaard a Deleuze, passando por Freud e Lacan, a repetição aparece como um fenômeno paradoxal: ao mesmo tempo em que remete a um retorno, nunca é um simples “voltar ao mesmo”. Nesse sentido, a frase “a repetição nunca se move no mesmo lugar” sintetiza uma verdade essencial: cada ato de repetição, ainda que aparente circularidade, carrega consigo diferença, deslocamento e possibilidade de transformação. Repetição na filosofia e na psicanálise Filosofia: Kierkegaard (1843/2010) já indicava que a repetição é uma categoria existencial ligada à possibilidade de renovação. Deleuze (1968/2006) reforça que toda repetição é, em si mesma, diferença. Não há reprodução pura do idêntico. Psicanálise: Freud, em Além do princípio do prazer (1920/2010), introduz a noção de compulsão à repetição, onde o sujeito retorna, de maneira apar...

A Relação Homoafetiva como Retorno ao Narcisismo Primário: Uma Interpretação Psicanalítica

  Título: A Relação Homoafetiva como Retorno ao Narcisismo Primário: Uma Interpretação Psicanalítica Resumo: Este artigo propõe uma interpretação psicanalítica da relação homoafetiva, sugerindo que ela pode representar um retorno ao narcisismo primário, conforme delineado por Freud. Embora Freud não tenha explicitamente formulado essa equivalência, a análise de suas obras e correspondências permite essa leitura. A proposta é apresentada como uma tese pessoal, sem juízo de valor, baseada em evidências textuais e clínicas. Introdução A psicanálise freudiana oferece uma compreensão profunda da sexualidade humana, abordando desde as fases iniciais do desenvolvimento até as dinâmicas das relações interpessoais.  Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Freud descreve a homossexualidade como uma variação da função sexual, resultante de uma interrupção no desenvolvimento sexual. Em 9 de abril de 1935, em uma carta à mãe de um jovem homossexual, Freud reforça ess...

O Sofrimento como Encruzilhada: Quando a Dor se Transforma em Caminho

O Sofrimento como Encruzilhada: Quando a Dor se Transforma em Caminho Introdução Na clínica, não é raro perceber que o sofrimento humano funciona como uma encruzilhada. Diante dele, o sujeito pode paralisar-se, assumindo a identidade de “doente” ou “fracassado”, ou pode se abrir a uma descoberta inesperada, encontrando potência onde antes parecia haver apenas escuridão. A Psicanálise ensina que os sintomas não são acidentes isolados, mas mensagens que pedem leitura. O inconsciente fala através de lapsos, sonhos e também do corpo. O modo como o sujeito se posiciona diante daquilo que lhe acontece pode transformar a experiência dolorosa em prisão ou em abertura de sentido. O fechamento no sintoma O adoecimento, físico ou psíquico, traz consigo um risco: o sujeito cristalizar-se em uma narrativa que o aprisiona. O “sou deprimido”, “sou ansioso”, “sou doente” podem transformar-se em identidades fixas que reduzem a vida a uma única cena. Nessa lógica, a doença passa a ser vivida como destin...

O Amor como Truque da Falta e da Recusa: Uma Leitura Clínica à Luz de Lacan

  Falta Recusa O Amor como Truque da Falta e da Recusa: Uma Leitura Clínica à Luz de Lacan Introdução Na tradição psicanalítica, o amor sempre ocupou uma posição paradoxal. Freud o reconheceu como fenômeno que beira tanto a sublimação quanto a repetição do desamparo. Lacan, por sua vez, radicaliza a questão ao afirmar: “o amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer” . Nessa máxima, condensam-se dois polos fundamentais: a falta e a recusa . Este artigo busca articular esses dois polos na clínica contemporânea, evidenciando como o amor romântico pode funcionar como um "truque" para contornar a tragédia existencial da não completude. O Sujeito da Falta Exegese clínica : O sujeito, ao se constituir, é atravessado pela experiência da castração simbólica: não há plenitude em si mesmo. Essa incompletude, ou falta, é estruturante, pois abre o campo do desejo. No entanto, em vez de aceitar a própria condição de sujeito desejante e faltante, muitos buscam tamponar essa fissur...

O Sofrimento como Precursor da Vida:

  O Sofrimento como Precursor da Vida:  Reflexões Psicanalíticas Por Elielberth Falcão Introdução O sofrimento costuma ser visto, em nossa cultura, como algo a ser evitado, eliminado ou anestesiado. No entanto, a clínica psicanalítica ensina que o sofrimento é um precursor da vida psíquica , um motor de transformação e crescimento. Assim como o pássaro que, dentro do ovo, encontra-se apertado e desconfortável até que a casca se rompe, o sujeito humano experimenta rupturas dolorosas que, ao invés de apenas ferir, inauguram a possibilidade de voar. A imagem do ovo nos lembra que o sofrimento não é simplesmente uma “perda” ou um “mal”, mas um processo de desconstrução necessário para que haja avanço. O que antes era abrigo, torna-se prisão. O que já foi proteção, transforma-se em limite. É nesse deslocamento que a psicanálise pode oferecer um olhar mais profundo. Freud: O Sofrimento como Condição da Existência Exegese teórica: Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930...

A CLÍNICA PSICANALÍTICA E O SUJEITO DIAGNOSTICADO COMO BORDERLINE: ENTRE O VAZIO, O EXCESSO E A POSSIBILIDADE DE ESCUTA

  A CLÍNICA PSICANALÍTICA E O SUJEITO DIAGNOSTICADO COMO BORDERLINE: ENTRE O VAZIO, O EXCESSO E A POSSIBILIDADE DE ESCUTA Resumo Este artigo discute a abordagem psicanalítica no trabalho com pacientes diagnosticados como borderline pela psiquiatria, destacando que a Psicanálise não se centra no diagnóstico, mas na escuta singular do sujeito. A partir de referências em Freud, Lacan e Jung, bem como da experiência clínica do autor, busca-se compreender a constituição psíquica desses sujeitos marcada por traços de vazio, dependência e excessos emocionais. Serão analisados casos clínicos nos quais a presença de mães com traços esquizofrênicos e a ausência paterna configuraram determinantes importantes na formação subjetiva. Palavras-chave: Psicanálise; Borderline; Freud; Lacan; Jung; Clínica. Introdução A categoria "borderline", surgida no campo psiquiátrico, ganhou força no século XX como diagnóstico que designa sujeitos oscilando entre neuroses graves e estados psicótic...

Repetição que cura? Entre a busca de um novo desfecho e a pulsão de morte

  Repetição que cura? Entre a busca de um novo desfecho e a pulsão de morte Resumo: A repetição, na clínica, é inconsciente e altamente organizada. Ela serve simultaneamente a dois vetores: (1) dominar e ligar experiências não simbolizadas, buscando um arranjo novo (um “outro desfecho”); e (2) sob certas condições, deslizar para o eixo tanático da desistência. Este texto contextualiza essas duas finalidades em Freud (1914; 1920) e propõe três dinâmicas clínicas para exemplificar como a repetição aparece no cotidiano analítico. 1) A repetição no horizonte freudiano Em 1914 , Freud observa que o paciente “não recorda, mas repete” : ele atua no presente aquilo que não consegue trazer como lembrança. Já em 1920 , ao desenvolver a teoria da compulsão à repetição , Freud mostra que a repetição vai além do princípio do prazer: ela busca dominar experiências traumáticas, ao mesmo tempo em que pode deslizar para a pulsão de morte . 2) Três dinâmicas clínicas que ilustram a repe...