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Mostrando postagens de outubro, 2025

Liberdade não é desempenho

  Liberdade não é desempenho Vivemos em uma época em que a liberdade se converteu em exigência de performance. O sujeito moderno acredita ser livre porque pode escolher, consumir, decidir e expor. No entanto, essa mesma liberdade o adoece, porque está aprisionada à lógica do “posso tudo” — uma lógica que não liberta, mas esmaga. Na sociedade do desempenho, como bem observou Byung-Chul Han, não há mais um senhor que oprime de fora; há um sujeito que se cobra de dentro. Ele é, ao mesmo tempo, senhor e escravo de si mesmo. Corre, produz, se reinventa, e ainda assim se sente em dívida — com o trabalho, com a imagem, com o sucesso. Mas a psicanálise nos alerta: liberdade não é desempenho. E mais — liberdade não é fazer o que se quer, mas, pelo contrário, é poder fazer o que não se deseja exatamente. Essa afirmação, aparentemente paradoxal, encontra sentido no campo freudiano. Freud nos mostrou que não somos donos do nosso querer. O “querer” está atravessado por determinações inconscient...

A Água e o Copo: Uma Leitura Psicanalítica da Adaptação e da Continência

 🩵 A Água e o Copo: Uma Leitura Psicanalítica da Adaptação e da Continência 🌊 Introdução: A frase “A água não luta contra o copo, mas toma a forma dele” ecoa um princípio de sabedoria oriental, popularizado por Bruce Lee em seu célebre “Be water, my friend”. Mas, se a transportarmos para o campo da Psicanálise, ela adquire uma profundidade singular: a capacidade humana de se adaptar sem perder a essência, conter sem reprimir e ser sem lutar inutilmente contra o real. 🧩 1. Freud e o Princípio de Realidade Exegese: Em Freud, a transição do princípio do prazer para o princípio de realidade marca o amadurecimento psíquico. O desejo (a água) deseja expandir-se livremente, mas a realidade (o copo) impõe limites. Um ego estruturado não destrói o copo — ele se molda a ele, aprendendo a canalizar suas pulsões dentro dos contornos simbólicos da vida social. Aplicação: Ser “água no copo” é reconhecer a realidade como contorno, não como prisão. É a maturidade de quem transforma limites em ...

Para o Perverso, a Lei é o Desejo

Para o Perverso, a Lei é o Desejo Há um traço essencial na estrutura perversa que a distingue das demais: o perverso não reconhece a lei como limite, mas como instrumento de prazer. Enquanto o neurótico sofre com as proibições impostas pela lei — “não pode”, “não deve” —, o perverso se satisfaz ao se colocar como aquele que a aplica ou a manipula. 🧩 O que isso significa? Em termos simples, o neurótico se sente culpado quando transgride; já o perverso goza ao obedecer. Ele não serve à lei para ser justo, mas para sentir prazer no ato de exercer poder, controle ou domínio. Por isso, dizemos que ele “serve à lei para gozar, e não para se castrar”. ⚖️ 1. O Juiz Moralista Um exemplo comum é o juiz que condena com prazer. Ele parece estar cumprindo seu dever, mas o que o move é o prazer de punir. A lei, nesse caso, é o meio de realizar seu desejo de poder. Ele “goza” ao ver o outro humilhado sob o peso da sentença, enquanto mantém a aparência de defensor da justiça. 🧕 2. O Fanático Religi...

Privação, Frustração e o Dano Imaginário em Lacan: Entendendo as Modalidades da Falta

  Privação, Frustração e o Dano Imaginário em Lacan: Entendendo as Modalidades da Falta Introdução Entre os conceitos mais fascinantes e, ao mesmo tempo, mais mal compreendidos da teoria lacaniana, está a falta — elemento que estrutura o sujeito e dá forma ao desejo. No Seminário 4 – A Relação de Objeto (1956-57) , Jacques Lacan propõe uma diferenciação fundamental entre três modalidades da falta : a privação , a frustração e a castração . Cada uma delas pertence a um registro distinto — Real, Imaginário e Simbólico — e marca de modo particular o modo como o sujeito se constitui diante da ausência. Compreender essa diferenciação não é apenas um exercício teórico; é um caminho para ler, na clínica, as formas como o sujeito responde às suas perdas, interditos e carências simbólicas. 1. As Três Formas da Falta 1.1. A Privação — A Falta Real A privação é uma falta que pertence ao registro do Real . Trata-se da ausência de algo que nunca existiu — um “não-haver” estrut...

O EU É UM OUTRO: UMA REFLEXÃO SOBRE O SUJEITO E O INCONSCIENTE EM LACAN

  🌀 O EU É UM OUTRO:  UMA REFLEXÃO SOBRE O SUJEITO E O INCONSCIENTE EM LACAN Há uma frase de Jacques Lacan que causa, à primeira vista, certo desconforto: “O Eu é um Outro.” Mas o que Lacan quis dizer com isso? E o que essa afirmação tem a ver com o modo como cada um de nós se percebe e se relaciona consigo mesmo? Essa ideia aparece de forma marcante no Seminário II – O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise (1954–1955).  Lacan se inspira numa frase do poeta francês Arthur Rimbaud – “Je est un autre” (“Eu é um outro”) – para pensar que o “eu” que acreditamos ser na verdade não passa de uma construção imaginária, formada a partir daquilo que o Outro (a cultura, a linguagem, a família, o olhar social) nos leva a idealizar . 🌙 O “EU” QUE PENSAMOS SER Desde cedo, somos levados a acreditar que temos um “eu” único, autêntico, firme. No entanto, Lacan mostra que esse “eu” é uma imagem construída — um reflexo moldado pelas expectativas do Outro. Ou seja, aquilo que p...

O Equívoco do Autoconhecimento na Psicanálise

  O Equívoco do Autoconhecimento na Psicanálise Há um equívoco persistente quando se fala em psicanálise: a ideia de que o processo analítico seria uma espécie de “experiência de autoconhecimento”. Muitos acreditam que o sujeito, ao longo da análise, “se descobrirá”, como quem abre uma janela e observa o próprio reflexo com mais nitidez. Essa é uma ilusão recorrente — e, talvez, necessária no início — mas não é disso que se trata a psicanálise. O psicanalista francês Jacques Lacan foi preciso ao apontar que conhecer a si mesmo é uma armadilha do eu, porque aquilo que se “conhece” torna-se automaticamente um objeto, algo exteriorizado, capturado pela linguagem e, portanto, alienado. O “eu” (moi) é uma construção imaginária, moldada no espelho das relações, feita de identificações, de reflexos, de idealizações. Quando o sujeito tenta conhecer a si mesmo, ele apenas se reconhece em suas imagens, em seus ideais, nas representações que sustentam seu narcisismo. Assim, o “autoconheciment...

O Ressentimento como Sintoma Narcísico: Entre a Inércia e a Ilusão Moral

O Ressentimento como Sintoma Narcísico: Entre a Inércia e a Ilusão Moral Por: Elielberth Falcão  Há um traço silencioso que atravessa o sujeito contemporâneo: o ressentimento. Nietzsche o percebeu como o veneno dos que não suportam ver, no outro, a coragem que lhes falta. Mas na clínica, esse fenômeno se apresenta de modo ainda mais sutil: como a defesa narcísica do eu diante da dor de sua própria impotência. O ressentido não se reconhece como tal. Ele se protege sob camadas de discurso moral, sob o disfarce do “cuidado”, da “prudência”, da “neutralidade”. Mas o que o move é uma fixação inconsciente no ideal frustrado — uma ferida narcísica mal elaborada que o impede de simbolizar a perda e o faz reagir contra quem realiza o que ele mesmo não conseguiu fazer. 1. A dinâmica psíquica do ressentimento Exegese clínica: O ressentimento é uma forma de recalque ativo. Nele, o sujeito não reprime apenas o desejo — ele o devolve invertido. A energia libidinal que deveria ser investida na cr...

O Desejo, a Censura e a Linguagem dos Sonhos na Clínica Psicanalítica

  O Desejo, a Censura e a Linguagem dos Sonhos na Clínica Psicanalítica Por Elielberth Falcão “O desejo tende a se expressar, mas encontra na censura o seu limite. É nesse embate que ele se revela nas imagens do sonho — por isso o conteúdo onírico tem papel essencial na análise.” (Elielberth Falcão, Simpósio sobre Sonhos — CPC, 2025) Introdução Durante o Simpósio sobre Sonhos promovido pela Companhia de Psicanálise Contemporânea (CPC) , vivenciamos uma rica troca de experiências clínicas e conceituais a respeito da função simbólica do sonho na escuta analítica. Foi nesse contexto que proferi a frase acima, a qual sintetiza um ponto nevrálgico da teoria freudiana: o sonho como via régia de acesso ao inconsciente, onde o desejo recalcado tenta se expressar, mas é constantemente filtrado pela censura psíquica . O debate ocorrido durante o encontro evidenciou que compreender o modo como o desejo se disfarça nas imagens oníricas é essencial para a leitura da cena inconsciente ...

O Objeto Que Não Há na Psicanálise Lacaniana

  O Objeto Que Não Há na Psicanálise Lacaniana Na psicanálise lacaniana, muito se fala sobre o objeto a , também chamado de objeto causa do desejo . Trata-se de um conceito central e, ao mesmo tempo, enigmático: é o objeto que não há . Mas o que isso significa de forma prática e clínica? Desejar é sempre desejar o que falta Para Jacques Lacan, o ser humano é marcado por uma falta estrutural . Quando entramos na linguagem — isto é, quando passamos a nos constituir como sujeitos simbólicos — perdemos algo da nossa experiência de completude. Essa perda inaugura o campo do desejo. O objeto a representa exatamente essa falta . Ele não é um objeto real , como uma pessoa, um bem ou uma experiência concreta. Ele é um lugar vazio , uma fenda simbólica , aquilo que o sujeito imagina que, se possuísse, o tornaria completo. Por isso, Lacan diz que “não há objeto” ( il n’y a pas d’objet a ) — pois o que move o desejo não é um objeto que existe, mas a falta de algo que nunca existiu . ...