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Mostrando postagens de julho, 2025

O Lugar da Escuta e o Risco do Diagnóstico na Clínica Psicanalítica

  O Lugar da Escuta e o Risco do Diagnóstico na Clínica Psicanalítica Introdução A escuta psicanalítica não se sustenta em certezas, mas em vazios. O analista não é aquele que oferece uma resposta ao sofrimento do sujeito, mas aquele que suspende o saber para que, através da fala, o analisando possa produzir uma verdade singular.  O campo da Psicanálise não se confunde com o da Medicina ou da Psicologia — e, portanto, não pode se ocupar da função diagnóstica, que é legal e eticamente atribuída às profissões regulamentadas para tal. Neste artigo, proponho uma reflexão firme e necessária sobre os limites do trabalho do psicanalista diante da tentação do diagnóstico.  Não apenas pelo risco jurídico que essa prática oferece, mas, sobretudo, pelos efeitos clínicos nefastos que um diagnóstico indevido pode provocar, interrompendo o processo analítico e impedindo o sujeito de falar de si. 1. Diagnóstico: quando o analista abandona sua função A formação em Psicanálise, ...

Gozo e Dor: Quando o Sofrimento se Torna Satisfação

  Gozo e Dor: Quando o Sofrimento se Torna Satisfação Por Elielberth Falcão Na vida cotidiana, é comum ouvirmos frases como: "Eu sei que isso me faz mal, mas não consigo parar" ou "É como se eu procurasse o sofrimento". A psicanálise, especialmente em sua vertente lacaniana, tem uma palavra para essa experiência paradoxal de encontrar prazer no sofrimento: gozo (jouissance) . Diferente do prazer moderado do princípio do prazer descrito por Freud, o gozo se refere a um tipo de satisfação que vai além — e frequentemente inclui dor . O que é o Gozo? Para Lacan, o gozo é uma satisfação que ultrapassa o limite do prazer . É aquilo que se busca mesmo que faça sofrer. Um excesso. Uma transgressão do limite imposto pelo princípio do prazer, que visa evitar o desprazer. O gozo, portanto, não é prazer — é mais, e por isso pode se confundir com a dor. Freud já havia intuído isso ao falar sobre as neuroses de repetição e o “além do princípio do prazer” (1920), onde o suje...

Responsabilidade ou Projeção? Quando o Cuidado com o Outro Escancara a Falta de Si

  Responsabilidade ou Projeção? Quando o Cuidado com o Outro Escancara a Falta de Si Por Elielberth Falcão Autor de Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e NARCISISMO num COMPÊNDIO CLÍNICO (Editora Santorini) “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” (Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe ) Essa frase tão conhecida e, em certa medida, romântica, guarda uma complexidade que, aos olhos da psicanálise, merece um olhar clínico mais demorado. Afinal, será que toda forma de responsabilidade afetiva é expressão de amor genuíno? Ou será que, por trás de um cuidado excessivo com o outro, pode existir uma tentativa inconsciente de ser cuidado ? 🧠 Quando cuidar é uma defesa contra o próprio desamparo Na clínica, encontramos muitos sujeitos que vivem em função do outro: pais que anulam seus desejos pelos filhos, cônjuges que "se entregam completamente", cuidadores que se desgastam para "salvar" alguém. À primeira vista, parecem altr...

Pequeno outro e Grande Outro em Lacan: quem é quem no desejo do sujeito?

  Pequeno outro e Grande Outro em Lacan: quem é quem no desejo do sujeito? A teoria lacaniana, por vezes, nos lança em mares densos. Mas entre as noções mais úteis – e necessárias – para a escuta clínica cotidiana, estão as distinções entre o pequeno outro (a) e o Grande Outro (A) . Se você já se perguntou por que um paciente sofre ao se comparar com o irmão, mas teme profundamente decepcionar o pai, você já tocou o núcleo dessa distinção. Vamos por partes. 1. Pequeno outro: o semelhante espelhado Chamamos de "pequeno outro" aquele que está no campo do imaginário : um igual, um semelhante com quem o sujeito se compara, compete ou se identifica. Ele aparece nas experiências mais precoces de formação do "eu", sobretudo no estágio do espelho . 👤 É o colega invejado, o irmão admirado ou odiado, o parceiro amoroso que ocupa o lugar de rival ou ideal. 2. Grande Outro: o lugar do significante O "Grande Outro" não é um ser humano, mas um lugar simbólico...

O LUGAR DA PSICANÁLISE: ESCUTAR, INTERPRETAR SEM DIAGNOSTICAR NEM LAUDAR

O LUGAR DA PSICANÁLISE: ESCUTAR, INTERPRETAR SEM DIAGNOSTICAR NEM LAUDAR Por Elielberth Falcão Resumo: Este artigo visa esclarecer o lugar da psicanálise enquanto prática de escuta clínica e simbólica, diferenciando-a das práticas biomédicas voltadas para o diagnóstico e para a elaboração de laudos. Apoiado em referências teóricas e exemplos clínicos, o texto defende que o psicanalista não ocupa o lugar do "nomeador de doenças", mas do "escutador de sofrimentos". Introdução No contexto contemporâneo, é comum observar confusões acerca dos limites e possibilidades da prática psicanalítica. Muitos profissionais e pacientes, por desconhecimento ou influência de modelos biomédicos hegemônicos, esperam que o psicanalista ofereça diagnósticos ou elabore laudos. Este artigo se propõe a reafirmar o lugar da psicanálise na escuta e na interpretação, distinguindo-a das profissões regulamentadas da saúde. 1. Diagnóstico e Laudo: Práticas de Profissões Regulamentadas Como afirma...

O Luto da Onipotência Narcísica: Um Caminho para a Autonomia Psíquica

  O Luto da Onipotência Narcísica: Um Caminho para a Autonomia Psíquica 1. Introdução Na psicanálise, um dos grandes desafios do desenvolvimento humano é o trabalho de desfazer a "onipotência narcísica". Essa expressão refere-se à experiência inicial do bebê que, sustentado pelo cuidado materno, acredita ser o centro do universo. Este artigo convida você a refletir sobre esse luto necessário para o amadurecimento psíquico e relacional. 2. O que é a Onipotência Narcísica? A "onipotência narcísica" é um estado psíquico primitivo em que o bebê vive na ilusão de que tudo ao seu redor existe para satisfazer suas necessidades. Donald Winnicott descreve essa fase como essencial para o desenvolvimento saudável, desde que transitória. É um tempo em que a criança acredita que tem controle absoluto sobre o ambiente, pois suas necessidades são atendidas quase magicamente pelos adultos. 3. A Crise da Separação e o Princípio de Realidade Sigmund Freud ensinou que a entra...

“Lá onde isso estava, eu devo advir”: A construção do sujeito no processo analítico

  “Lá onde isso estava, eu devo advir”: A construção do sujeito no processo analítico Por Elielberth Falcão Introdução A psicanálise, desde Freud, é atravessada pela busca de escutar aquilo que se repete no sujeito, mesmo sem que ele compreenda o porquê. Jacques Lacan, relendo Freud à luz da linguagem e da estrutura do desejo, condensou essa experiência psicanalítica numa frase densa e poderosa: (“Lá onde isso estava, eu devo advir.”) — Jacques Lacan, Seminário 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (1964) Essa proposição é, ao mesmo tempo, um princípio clínico e uma ética da escuta: o inconsciente é o lugar do “isso” que governa o sujeito — seus sintomas, suas repetições, seus esquecimentos, seus fracassos — e a função da análise é possibilitar o advento do sujeito nesse lugar antes comandado pelo desejo do Outro. Mas como comunicar isso a quem está começando a se escutar? Como explicar essa ideia para pacientes e alunos em formação que ainda não se habit...