“Lá onde isso estava, eu devo advir”: A construção do sujeito no processo analítico

 


“Lá onde isso estava, eu devo advir”: A construção do sujeito no processo analítico

Por Elielberth Falcão


Introdução

A psicanálise, desde Freud, é atravessada pela busca de escutar aquilo que se repete no sujeito, mesmo sem que ele compreenda o porquê. Jacques Lacan, relendo Freud à luz da linguagem e da estrutura do desejo, condensou essa experiência psicanalítica numa frase densa e poderosa:


(“Lá onde isso estava, eu devo advir.”)
— Jacques Lacan, Seminário 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (1964)

Essa proposição é, ao mesmo tempo, um princípio clínico e uma ética da escuta: o inconsciente é o lugar do “isso” que governa o sujeito — seus sintomas, suas repetições, seus esquecimentos, seus fracassos — e a função da análise é possibilitar o advento do sujeito nesse lugar antes comandado pelo desejo do Outro.

Mas como comunicar isso a quem está começando a se escutar? Como explicar essa ideia para pacientes e alunos em formação que ainda não se habituaram à linguagem lacaniana?


1. A frase, simplificada 

Para um público leigo — ou mesmo para o paciente que está iniciando seu processo de análise — a frase de Lacan pode ser traduzida assim:

“Onde antes eu agia sem saber por quê, agora eu posso me tornar quem sou.”

Ou ainda:

“No lugar onde o inconsciente mandava em mim, eu preciso nascer como sujeito.”

Essa versão acessível ajuda o paciente a entender que seu sofrimento não é apenas produto de escolhas conscientes ou de fatos isolados da vida, mas de uma trama inconsciente que o governa até que ele possa ocupar esse lugar com palavra e desejo próprios.


2. Aplicações clínicas simples

Exemplo 1 – A.M.Von.Y: a que se anula para ser aceita

A.M.Von.Y, 35 anos, chega ao consultório dizendo:

“Em todo relacionamento eu me anulo. Faço tudo para agradar, e só percebo que me perdi quando já estou destruída.”

Ao longo do processo analítico A.M.Von.Y, percebe que, desde a infância, só recebia afeto da mãe quando era “boazinha” e nunca contrariava. O amor vinha como recompensa por renúncia. Agora, ao entender isso, A.M.Von.Y começa a perguntar:

“O que eu quero? O que me agrada? Eu posso dizer ‘não’ sem perder o amor do outro?”

Aplicação lacaniana: O desejo do Outro (a mãe) regia sua vida. No processo de análise,  A.M.Von.Y, começa a “advir” como sujeito — começa a ocupar o lugar que antes era ocupado pelo “isso”.


Exemplo 2 – C.Von C.: o que não consegue concluir projetos

C.Von C, 28 anos, troca de curso universitário pela terceira vez. Diz que tudo o desmotiva. Sua queixa:

“Sempre que estou perto de concluir algo, eu travo. Começa a me dar angústia. Parece que eu não mereço.”

Na análise, C.Von C, recorda que seu pai abandonou a família no mesmo ano em que ele entrou na escola. Sua mãe sempre dizia:

“Você é o homem da casa agora, não pode errar.”

Sem perceber, C.Von C, a sabotar inconscientemente suas conquistas, como forma de não ocupar um lugar que considera perigoso: o de ser “grande demais”, “bem-sucedido demais”, e acabar sozinho, como foi o pai.

Aplicação lacaniana: No lugar onde o “isso” determinava o fracasso como proteção,  pode começar a advir como sujeito, C.Von C, sua história e abrindo espaço para desejar algo novo.


Exemplo 3 – J.L.Von W.: a que repete relações abusivas

 

J.L.Von W., 42 anos, tem um histórico de relações com homens ciumentos, possessivos e controladores. Já foi agredida verbalmente em dois relacionamentos. Ainda assim, afirma:

“Eu sei que é errado, mas parece que eu me sinto viva quando alguém me controla.”

Ao longo da análise, ela acessa lembranças da infância com um pai severo, que controlava todos os passos da mãe. No entanto, esse mesmo pai era o único que a elogiava quando ela obedecia cegamente.

O desejo do Outro se inscreveu nela como lei: só merece afeto quem se submete.

Aplicação lacaniana:

J.L.Von W., passa a reconhecer a repetição. Ao nomear essa lógica, ela se descola do lugar de objeto do desejo do Outro e começa a surgir como sujeito desejante, capaz de dizer: “não quero mais isso.”


3. Conclusão: O sujeito nasce na escuta

A frase de Lacan não é uma poesia filosófica, mas uma direção de tratamento. A análise não busca fazer o sujeito “se encaixar”, mas ajudá-lo a emergir ali onde antes só havia repetição, sintoma, gozo e obediência a um desejo alheio.

A clínica psicanalítica é, assim, um campo de travessia: do sujeito alienado no Outro para o sujeito que advém de sua própria palavra.


Referências bibliográficas

  • Freud, S. (1915). O inconsciente. In: Obras Completas, v. XIV. Imago.

  • Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

  • Nasio, J.-D. (1992). Os grandes casos de psicose. Rio de Janeiro: Zahar.

  • Quinet, A. (2000). O homem sem inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar.

  • Roudinesco, E. (1993). Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.


Sobre o autor

Elielberth Falcão é psicanalista clínico, professor e escritor. Atua na formação de psicanalistas e no ensino da psicanálise contemporânea com ênfase em autores pós-freudianos. É autor do livro Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e NARCISISMO num COMPÊNDIO CLÍNICO pela Editora Santorini e colabora em diversas instituições e congressos na área. Atualmente, é acadêmico em Psicologia pela Universidade UNIGRANRIO Afya Campus-Caxias-RJ.



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