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Mostrando postagens de maio, 2025

O erro não é o que significa. O que se deve investigar é o erro atrás do erro

  O erro atrás do erro: escuta, suplência e o que ainda não foi dito Por Elielberth Falcão “ O erro não é o que significa. O que se deve investigar é o erro atrás do erro. ” Essa frase, dita por um paciente em sessão, reverberou em mim como uma espécie de dobra do dizer — um enunciado que carrega mais do que afirma, que escancara o que se recusa a ser simplesmente interpretado. Não importa tanto se tal formulação foi organizada por ele como defesa ou construção intelectual. O que me impressionou foi a potência do pensamento que ela produz. Há frases que tocam o analista como uma intervenção no próprio lugar de escuta. Não se trata do “dito”, mas do que ainda não foi dito — e talvez jamais o será. Nesse caso, não me interessa reduzir a frase a um sintoma, nem assumi-la como insight (ideia boa). Ela é, como muitas vezes ocorre no espaço analítico, um ato de linguagem que convoca o analista a uma posição subjetiva . Ali, me reconheci como o que Lacan chamou de Sujeito Suposto S...

O Prazer do Inatingível: Desejo, Falta e Permanência no Percurso

  O Prazer do Inatingível: Desejo, Falta e Permanência no Percurso “O desejo não se realiza na posse do objeto, mas se sustenta justamente em sua ausência. É na fantasia, e não na obtenção, que o sujeito encontra satisfação. Assim, o que se busca não é propriamente o objeto em si, mas a permanência no próprio movimento do desejar.” Introdução O desejo, na psicanálise, não é uma linha reta que liga sujeito e objeto, mas um circuito que se retroalimenta da própria ausência. É um movimento contínuo que se mantém não por aquilo que é alcançado, mas pelo que eternamente escapa.  A experiência do desejar é marcada por um paradoxo: é na falta que o sujeito se constitui e se move, e é nesse movimento que ele encontra sentido, ainda que nunca plenitude. Este artigo pretende refletir sobre a lógica do desejo a partir da ausência e da fantasia, com base nos aportes freudianos e lacanianos, articulando o conceito com exemplos clínicos de pacientes preservados com nomes fictícios....

Sustentando a Queixa: O Caminho para a Verdadeira Interpretação

Sustentando a Queixa: O Caminho para a Verdadeira Interpretação Experiências Clínicas em Psicanálise Na prática psicanalítica, cada sessão é uma janela para o inconsciente, um mergulho nas profundezas da psique humana. Ao longo dos anos, diversas experiências me permitiram compreender a importância de sustentar a queixa do paciente antes de oferecer qualquer interpretação. Vou compartilhar algumas dessas experiências, mantendo o sigilo e a ética clínica, mas oferecendo insights que podem enriquecer a compreensão da prática psicanalítica. O Caso de Seraphine: A Queixa Que Revela o Inconsciente Seraphine (nome fictício), uma jovem adulta de 28 anos, procurou análise queixando-se de "insegurança constante" em seus relacionamentos. Nos primeiros encontros, notei sua dificuldade em sustentar uma linha de pensamento, rapidamente desviando para outros temas. Em vez de apressar-me em interpretar essa fuga como resistência, optei por sustentar sua queixa. Durante várias sessões, ...

O Berço da Psicologia: Alemanha e Estados Unidos

O Berço da Psicologia: Alemanha e Estados Unidos A Psicologia é uma ciência que possui uma história rica e multifacetada, marcada por duas importantes origens: a Alemanha e os Estados Unidos. Entender essa dupla origem é fundamental para compreender como a Psicologia se tornou a disciplina científica e prática que conhecemos hoje. A Alemanha: O Berço da Psicologia Científica O nascimento da Psicologia como uma ciência independente ocorreu na Alemanha, mais especificamente na cidade de Leipzig, em 1879. Foi lá que Wilhelm Wundt, filósofo e fisiologista, fundou o primeiro laboratório de Psicologia Experimental. Seu objetivo era estudar os processos mentais de forma sistemática e controlada, utilizando métodos experimentais que colocavam a Psicologia no mesmo patamar das demais ciências naturais. Wundt acreditava que a Psicologia deveria investigar a consciência humana, seus componentes e como eles se organizavam. Suas pesquisas focavam na percepção, na sensação e na reação aos estímulos,...

O Sujeito e a Ilusão da Verdade na Clínica Psicanalítica

O Sujeito e a Ilusão da Verdade na Clínica Psicanalítica Introdução O trabalho clínico em psicanálise revela, com frequência, que o sujeito não está em busca da verdade sobre si, mas, paradoxalmente, de uma confirmação de suas ilusões. A resistência em enfrentar a verdade se apresenta como uma defesa organizada, estruturada para manter o indivíduo na zona de conforto da fantasia. Como psicanalista, tenho observado que o objeto do desejo muitas vezes não é o verdadeiro interesse do analisando, mas sim o engodo, a fantasia do percurso que o mantém distante de uma autêntica transformação. A Resistência ao Conhecimento de Si A resistência do sujeito na clínica é uma defesa contra a dor do autoconhecimento. Ao invés de se confrontar com a verdade, ele busca permanecer na ilusão. Esta resistência é inconsciente e está diretamente ligada ao medo de perder uma identidade construída na fantasia. A análise não é apenas um espaço para "falar o que vem à mente", mas um campo onde o sujei...

A Complexidade por trás do Desejo

  A complexidade por trás do desejo A psicanálise, conhecida como a "ciência do desejo", adentra um território complexo onde o desfecho resolutivo do dilema do desejo não se concretiza e jamais se concretizará.  Ao longo da história da psicanálise, desde Freud até Lacan, o desejo se apresenta como uma força enigmática, marcada pela ausência, pela insatisfação e pela eterna busca. Freud, ao desenvolver o conceito de desejo inconsciente, revelou que o ser humano é fundamentalmente um ser desejante, impulsionado por forças psíquicas que muitas vezes lhe escapam à consciência.  Em sua teoria, o desejo está intrinsecamente ligado ao recalque, à proibição e ao retorno do recalcado. No entanto, foi com Lacan que o desejo ganhou uma nova dimensão, sendo compreendido como algo que nunca se satisfaz plenamente, pois se alimenta da falta. Para Lacan, o desejo é estruturado pelo campo do Outro, onde o sujeito busca aquilo que lhe falta, mas não encontra satisfação no objeto obtido. O...

Técnica sem Ética: A Inviabilidade da Clínica como Lugar de Encontro com o Sujeito

  Técnica sem Ética: A Inviabilidade da Clínica como Lugar de Encontro com o Sujeito Por Elielberth Falcão "A técnica sem ética é puro adestramento." Essa afirmação, atribuída a Jacques Lacan, não é apenas uma provocação teórica, mas uma denúncia sobre a crescente dessubjetivação que ameaça a prática clínica em nossos tempos. Ao destacar a primazia da ética sobre a técnica, Lacan nos convoca a revisitar o campo da escuta psicanalítica como um território que vai muito além da aplicação de protocolos ou da repetição de fórmulas interpretativas. A tecnificação da clínica: quando o sujeito é esquecido A sociedade contemporânea, marcada pelo culto à eficácia e à produtividade, impõe um modelo tecnocrático às profissões da saúde mental. Neste cenário, muitos psicanalistas em formação — ou mesmo já em exercício — acabam por reduzir a escuta a um conjunto de estratégias, técnicas e "respostas corretas", como se o inconsciente pudesse ser decifrado por meio de uma fórmu...

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O Impacto do Belo: Quando o Trauma Não Vem do Horror, Mas do Excesso

  O Impacto do Belo: Quando o Trauma Não Vem do Horror, Mas do Excesso Por Elielberth Falcão Introdução Na clínica psicanalítica, é comum associarmos o trauma a acontecimentos negativos — perdas, abusos, violências ou humilhações. Contudo, há uma dimensão menos debatida, mas profundamente real: o trauma causado por algo “bom demais”. Uma experiência intensa de alegria, reconhecimento ou realização pode, em certas condições, romper com a estrutura psíquica do sujeito e instaurar sofrimento. Este artigo propõe uma reflexão sobre o trauma enquanto excesso — não apenas de dor, mas também de prazer — e o papel da escuta analítica diante dessas manifestações. 1. Trauma como excesso: da falta ao transbordamento Freud, em Além do Princípio do Prazer (1920), amplia a concepção de trauma ao relacioná-lo com a falha do aparelho psíquico em integrar um acontecimento que ultrapassa sua capacidade de elaboração. O trauma, assim, não é o evento em si, mas o modo como ele é registrado — o...