O Prazer do Inatingível: Desejo, Falta e Permanência no Percurso
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O Prazer do Inatingível: Desejo, Falta e Permanência no Percurso
“O desejo não se realiza na posse do objeto, mas se sustenta justamente em sua ausência. É na fantasia, e não na obtenção, que o sujeito encontra satisfação. Assim, o que se busca não é propriamente o objeto em si, mas a permanência no próprio movimento do desejar.”
Introdução
O desejo, na psicanálise, não é uma linha reta que liga sujeito e objeto, mas um circuito que se retroalimenta da própria ausência. É um movimento contínuo que se mantém não por aquilo que é alcançado, mas pelo que eternamente escapa.
A experiência do desejar é marcada por um paradoxo: é na falta que o sujeito se constitui e se move, e é nesse movimento que ele encontra sentido, ainda que nunca plenitude.
Este artigo pretende refletir sobre a lógica do desejo a partir da ausência e da fantasia, com base nos aportes freudianos e lacanianos, articulando o conceito com exemplos clínicos de pacientes preservados com nomes fictícios.
A intenção é compreender como o sujeito, em análise, repete circuitos de desejo que revelam muito mais sobre sua estrutura do que sobre os objetos aos quais supostamente se dirige.
O desejo como permanência na falta
Desde Freud, o desejo foi compreendido como algo que se estrutura a partir da falta. Lacan radicaliza essa ideia ao afirmar que "o desejo é o desejo do Outro", ou seja, é sempre mediado, deslocado, nunca direto. O objeto do desejo é um objeto a — causa do desejo, e não sua finalidade. O sujeito deseja aquilo que representa uma falta, um vazio estrutural que jamais será preenchido.
A satisfação, portanto, não está no encontro com o objeto, mas no circuito que se forma ao redor dele, sustentado por fantasias. O sujeito goza não da posse, mas da busca. Quando finalmente toca o que queria, algo se perde — o objeto se revela incapaz de saciar aquilo que o movia.
A fantasia como suporte do desejo
A fantasia (no sentido psicanalítico) é o cenário onde o sujeito inscreve sua relação com o objeto do desejo. Ela estrutura a maneira como ele vive o mundo e a si mesmo. Não se trata de um devaneio consciente, mas de uma construção inconsciente que sustenta sua economia libidinal.
Vinhetas clínicas: três sujeitos desejantes
1. Laura Bhelen: o amor impossível como refúgio
Laura tem 36 anos e repete o padrão de se apaixonar por homens casados. Na análise, percebe que sua idealização se sustenta justamente na inacessibilidade desses objetos. Quando um deles se separa e se declara por ela, Laura entra em pânico e rompe o vínculo. A análise revela que seu desejo está ancorado na ausência: enquanto o objeto era inalcançável, ela podia investir nele sua fantasia. A presença, porém, desmonta a cena. O que ela deseja é a eternidade do percurso, não a chegada.
2. Marthin Wlhin: o concurso que nunca chega
Marthin tem 28 anos e sonha em ser juiz. Há anos estuda para concursos, mas sempre evita as fases finais — perde prazos, entrega provas incompletas. Em análise, emerge uma fantasia infantil de ser reconhecido pelo pai, um sujeito ausente e exigente. O concurso se torna um objeto deslocado desse desejo primordial. Marthin não quer passar: ele quer seguir desejando esse reconhecimento. Passar representaria um fim, uma perda daquilo que o move.
3. Dheri Morlin: o retorno ao mesmo lugar
Dheri, 42 anos, repete relações amorosas abusivas. Afirma desejar um parceiro que a respeite, mas sempre se envolve com sujeitos que a desvalorizam. Em análise, ela descobre que seu desejo inconsciente está ligado à fantasia de salvar o pai alcoólatra e violento. Cada relação atual é uma cena reeditada da infância, onde ela tenta modificar o desfecho traumático. O desejo aqui não visa o objeto (o parceiro), mas a manutenção da repetição que a estrutura.
Conclusão
O desejo, como estrutura, não visa a obtenção, mas a sustentação. O sujeito neurótico se constitui em torno de uma falta que jamais se preenche — e é nessa incompletude que ele vive, sofre, ama e fantasia. A análise não elimina o desejo, mas desvela sua lógica, revelando que, muitas vezes, a realização de um desejo equivale à sua morte.
Nos três casos apresentados, o que se evidencia é que o sujeito se satisfaz na manutenção do percurso desejante, e não na posse do objeto. A ausência, longe de ser um problema, é a própria condição do desejo.
Sobre o autor
Elielberth Falcão é psicanalista clínico. Atua como docente em instituições de formação psicanalítica, é escritor e acadêmico em Psicologia pela Universidade UNIGRANRIO Campus-Caxias-RJ. É autor de "Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos" e "NARCISISMO num COMPÊNDIO CLÍNICO", ambos pela Editora Santorini
Referências Bibliográficas
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FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
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FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
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LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
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LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
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MILLER, Jacques-Alain. Introdução ao método psicanalítico. São Paulo: Manole, 1997.
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ZIZEK, Slavoj. O mais sublime dos histéricos: Hegel com Lacan. São Paulo: Autêntica, 2008.
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