O Impacto do Belo: Quando o Trauma Não Vem do Horror, Mas do Excesso

 


O Impacto do Belo: Quando o Trauma Não Vem do Horror, Mas do Excesso

Por Elielberth Falcão


Introdução

Na clínica psicanalítica, é comum associarmos o trauma a acontecimentos negativos — perdas, abusos, violências ou humilhações. Contudo, há uma dimensão menos debatida, mas profundamente real: o trauma causado por algo “bom demais”. Uma experiência intensa de alegria, reconhecimento ou realização pode, em certas condições, romper com a estrutura psíquica do sujeito e instaurar sofrimento. Este artigo propõe uma reflexão sobre o trauma enquanto excesso — não apenas de dor, mas também de prazer — e o papel da escuta analítica diante dessas manifestações.


1. Trauma como excesso: da falta ao transbordamento

Freud, em Além do Princípio do Prazer (1920), amplia a concepção de trauma ao relacioná-lo com a falha do aparelho psíquico em integrar um acontecimento que ultrapassa sua capacidade de elaboração. O trauma, assim, não é o evento em si, mas o modo como ele é registrado — ou falha em ser registrado — no psiquismo.

Em consonância, Wilfred Bion propõe que a experiência traumática ocorre quando os elementos brutos da experiência (β-elementos) não encontram um continente simbólico para serem metabolizados. Um “acontecimento bom” pode se tornar traumático se vivenciado como excesso, invadindo o sujeito com algo que ele não pode processar.


2. Quando o 'bom' se torna traumático

Experiências de felicidade extrema, sucesso repentino, amor idealizado ou reconhecimento inesperado podem atuar como gatilhos traumáticos. Isso ocorre, especialmente, em três situações:

  • Idealização narcísica intensa: o sujeito, ao ser excessivamente elogiado ou amado, entra em conflito com sua autoimagem real. A discrepância gera angústia e sensação de impostura.

  • Quebra de defesas psíquicas: o “bom demais” desarma defesas construídas em torno da dor, expondo feridas que estavam silenciadas.

  • Reativação de cenas primitivas: experiências atuais de prazer podem reatualizar vivências precoces de exclusão, abandono ou culpa inconsciente, criando um curto-circuito psíquico.


3. Exemplo clínico (caso ficcionalizado)

Paciente M., 34 anos, procurou análise após o nascimento do primeiro filho. Descrevia a experiência como “perfeita”, mas começou a apresentar crises de ansiedade, sensação de sufocamento e medo da morte. No percurso analítico, emergiram lembranças de uma infância marcada por abandono materno. O filho representava o amor que ela jamais teve. A vivência do ‘ideal’ entrou em choque com seu núcleo narcísico ferido. A maternidade, que deveria ser celebração, tornou-se um trauma — não pela dor, mas pelo excesso de significação.


4. Atuação do psicanalista

Frente a esses casos, o papel do analista exige sensibilidade e suspensão de julgamentos:

  • Validar o sofrimento não óbvio: reconhecer que o sofrimento pode emergir de vivências alegres, sem banalizá-las.

  • Sustentar a escuta do paradoxo: acolher a ambivalência entre prazer e angústia.

  • Facilitar a simbolização do excesso: ajudar o sujeito a metabolizar o que antes não podia ser representado.

O analista não deve responder com interpretações precipitadas, mas sim com uma presença continente, permitindo que o indizível encontre palavras.


5. Conclusão

O trauma não se define apenas pelo horror, mas também pelo colapso diante de um real que excede a capacidade de simbolização. Experiências “boas demais” podem produzir efeitos traumáticos quando confrontam o sujeito com partes de si ainda não integradas. O trabalho analítico, portanto, é o de escutar tanto o grito quanto o suspiro — tanto o que fere quanto o que brilha, pois em ambos há risco e revelação.


Referências Bibliográficas

  • BION, W. R. Aprender com a Experiência. Imago, 1991.

  • BIRMAN, J. Mal-estar na Atualidade: A Psicanálise e as Novas Formas de Subjetivação. Civilização Brasileira, 2000.

  • FREUD, S. Além do Princípio do Prazer (1920). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XVIII. Imago, 1974.

  • LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. Martins Fontes, 2001.

  • MILLER, J.-A. O Trauma e o Inconsciente Real. In: Opção Lacaniana online, n. 54, 2008.

  • WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Imago, 1975.


Sobre o autor

Elielberth Falcão é psicanalista clínico didata, professor de Psicanálise e pesquisador, com sólida atuação em clínica individual e institucional. É autor do livro Narcisismo num Compêndio Clínico — Uma Abordagem em torno do TPN, publicado pela Editora Santorini. Também é autor de Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos pela mesma Editora.



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