O erro não é o que significa. O que se deve investigar é o erro atrás do erro

 

O erro atrás do erro: escuta, suplência e o que ainda não foi dito

Por Elielberth Falcão


“O erro não é o que significa. O que se deve investigar é o erro atrás do erro.”

Essa frase, dita por um paciente em sessão, reverberou em mim como uma espécie de dobra do dizer — um enunciado que carrega mais do que afirma, que escancara o que se recusa a ser simplesmente interpretado.

Não importa tanto se tal formulação foi organizada por ele como defesa ou construção intelectual. O que me impressionou foi a potência do pensamento que ela produz. Há frases que tocam o analista como uma intervenção no próprio lugar de escuta. Não se trata do “dito”, mas do que ainda não foi dito — e talvez jamais o será.

Nesse caso, não me interessa reduzir a frase a um sintoma, nem assumi-la como insight (ideia boa). Ela é, como muitas vezes ocorre no espaço analítico, um ato de linguagem que convoca o analista a uma posição subjetiva. Ali, me reconheci como o que Lacan chamou de Sujeito Suposto Saber — não porque sei, mas porque sou colocado no lugar de quem “deveria saber” qual é o “erro atrás do erro”.

Esse paciente, homem culto e organizado, vive sob a disciplina dos nomes corretos, das pontuações precisas, da linguagem esmerada. Seu discurso é feito de silêncios bem colocados e frases estrategicamente compostas. Mas o que me tocou nesse dia foi o que não estava na forma, mas na fresta — esse recuo entre o erro e o outro erro, onde talvez habite o real.

A psicanálise nos ensina a escutar mais além do conteúdo, a reconhecer que o sujeito não é o que diz, mas o que escapa no que foi dito. Quando ele afirma que “o erro não é o que significa”, ele está se opondo ao discurso do mundo que tudo quer interpretar, corrigir, rotular. Há, portanto, uma crítica implícita à lógica do sentido.

Mas é na segunda parte da frase que algo se move: “o que se deve investigar é o erro atrás do erro”. Eis o convite: não basta interpretar o que está dado; é preciso cismar com o que funda o próprio equívoco. O erro não é um desvio — é um traço do sujeito. Por trás do tropeço, mora um desejo, uma falta, um gozo, um fantasma.

Essa proposição filosófica que nasce de uma análise nos mostra que o sintoma nunca se esgota em sua superfície. Por trás do que aparece como erro pode haver um acerto recalcado, um movimento inconsciente de repetição ou proteção. A escuta psicanalítica não é uma escuta interpretativa no sentido clássico, mas uma escuta de suplência: suportar o que falta, acolher o que se insinua sem forma, sustentar o que não se deixa nomear.

Em tempos de hiperprodutividade e de diagnósticos instantâneos, talvez o verdadeiro ato clínico seja esse: não apressar o sentido, mas respeitar o tempo do erro — e mais ainda, o tempo do erro por trás do erro. Porque ali, quem sabe, mora um pedaço da verdade do sujeito.


Referências Bibliográficas

  • Freud, S. (1901). A Psicopatologia da Vida Cotidiana. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 6. Imago.

  • Freud, S. (1917). Conferências introdutórias sobre psicanálise. In: Obras Completas, v. 15. Imago.

  • Lacan, J. (1953-1954). O Seminário, Livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Zahar.

  • Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Zahar.

  • Roudinesco, E. (1997). Jacques Lacan: Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. Zahar.

  • Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Imago.


Sobre o autor

Elielberth Falcão é psicanalista clínico, escritor e estudante de Psicologia pela Universidade Unigranrio. Atua há anos como docente e supervisor clínico em cursos e instituições de formação em Psicanálise. É autor de dois livros publicados pela Editora Santorini:

  • Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos (2023), onde articula contribuições entre o pensamento freudiano e as vivências religiosas do sujeito moderno.

  • NARCISISMO num COMPÊNDIO CLÍNICO (2025), uma obra que propõe um olhar clínico, ético e humanizado sobre a estrutura narcísica em sua dimensão funcional e destrutiva.


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