O Lugar da Escuta e o Risco do Diagnóstico na Clínica Psicanalítica

 


O Lugar da Escuta e o Risco do Diagnóstico na Clínica Psicanalítica


Introdução

A escuta psicanalítica não se sustenta em certezas, mas em vazios. O analista não é aquele que oferece uma resposta ao sofrimento do sujeito, mas aquele que suspende o saber para que, através da fala, o analisando possa produzir uma verdade singular. 

O campo da Psicanálise não se confunde com o da Medicina ou da Psicologia — e, portanto, não pode se ocupar da função diagnóstica, que é legal e eticamente atribuída às profissões regulamentadas para tal.

Neste artigo, proponho uma reflexão firme e necessária sobre os limites do trabalho do psicanalista diante da tentação do diagnóstico. 

Não apenas pelo risco jurídico que essa prática oferece, mas, sobretudo, pelos efeitos clínicos nefastos que um diagnóstico indevido pode provocar, interrompendo o processo analítico e impedindo o sujeito de falar de si.


1. Diagnóstico: quando o analista abandona sua função

A formação em Psicanálise, especialmente em espaços não supervisionados ou desvinculados de uma ética rigorosa, tem permitido a proliferação de analistas que ocupam o lugar do saber absoluto. Diante do sofrimento do outro, apressam-se em dar nomes: "Você é depressivo", "Você tem transtorno borderline", "Isso é claramente um transtorno ansioso generalizado". E fazem isso sem serem psicólogos ou médicos, muitas vezes sem consciência de que estão ferindo o campo ético que sustenta a Psicanálise.

A nomeação precipitada rompe com o princípio básico do ofício analítico: a escuta.
A escuta psicanalítica não se faz com rótulos, mas com silêncio sustentado, com o não-saber que permite o nascimento do dizer do sujeito.


2. A palavra do analista como interdito: o risco da nomeação

Ao receber um diagnóstico de alguém que ocupa, simbolicamente, a posição de autoridade (como é o caso do analista), o sujeito se vê capturado. O diagnóstico dado passa a funcionar como um destino. O analisando passa a falar a partir daquilo que o outro disse que ele é — e não mais daquilo que ele poderia vir a descobrir de si.

“O analista é o aço do espelho do analisando que o possibilita a se enxergar.”
Isso significa que ele não é aquele que diz quem o outro é, mas o que sustenta uma superfície onde o sujeito pode refletir-se e, ao se ver, inventar-se.

Dar um diagnóstico fora do campo legal é grave. Mas dar um diagnóstico fora da ética analítica é desastroso, porque impede o sujeito de continuar dizendo, produzindo, desejando.


3. A legalidade da questão: o que diz a Lei nº 4.119/1962

A Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962, que regulamenta a profissão de psicólogo no Brasil, afirma com clareza:

Art. 13 – Constitui exercício ilegal da Psicologia:
Exercer atividades privativas do psicólogo sem estar devidamente registrado no Conselho Regional de Psicologia.

Entre as atividades privativas estão:

  • Diagnóstico psicológico;

  • Aplicação e interpretação de testes psicológicos;

  • Emissão de laudos ou pareceres clínicos;

  • Avaliações de saúde mental.

Interpretação legal:

  1. Psicanalistas que não são psicólogos não podem realizar diagnóstico clínico-psicológico;

  2. Nomear transtornos ou estados mentais a partir de manuais como o CID-10 ou DSM-5 configura exercício ilegal da Psicologia;

  3. Mesmo que ocorra em cursos livres ou instituições não regulamentadas, tal prática pode gerar responsabilização judicial, além de implicar sérios danos ao paciente.


4. Caso clínico: devolvendo o sujeito à sua fala

Recebi em minha clínica um jovem de 23 anos, estudante de Direito, a quem chamarei aqui de Bruno (nome fictício). Bruno havia passado por uma experiência de “atendimento” com um psicanalista não psicólogo, que lhe disse, após ouvir parte de sua história:

“Você tem transtorno depressivo persistente.”

Essa frase o paralisou. Bruno passou a se apresentar como depressivo. Evitava espaços de escuta e dizia frases como:

“Eu ajo assim porque sou depressivo, isso é do transtorno.”

A escuta havia sido interditada por uma palavra vinda do lugar de saber.
Em nossa clínica, o trabalho não foi simples. Não era apenas escutar Bruno, mas desfazer o lugar fixo onde ele havia sido colocado por alguém que não apenas não tinha a formação para diagnosticá-lo, mas — pior — não compreendia os efeitos da palavra diagnóstica no sujeito em transferência.

Aos poucos, sem jamais dizer que ele não era isso ou aquilo, o conduzi novamente ao campo da pergunta:

“O que você sente?”
“O que em você sofre?”
“O que você pensa quando se cala?”

Bruno começou a falar. Associava livremente. Chorava. Tinha raiva. Relembrava passagens esquecidas. Voltou a pensar no futuro. Um dia, disse:

“Eu passei meses tentando me encaixar num diagnóstico. Hoje, tento escutar o que está fora dele.”

Foi um longo processo de devolução ao sujeito da própria fala. Um movimento de retorno ao lugar onde ele pudesse dizer — e não apenas repetir o que lhe foi dito.


5. Conclusão: diagnóstico não é a função do analista

O analista não é aquele que entrega um nome ao sofrimento, mas aquele que sustenta o espaço onde o sujeito possa nomear a si mesmo. Ao ceder ao desejo de classificar, o analista abandona sua função e entra em um campo que não lhe pertence — nem ética, nem juridicamente.

É preciso dizer com firmeza:
Não é função do psicanalista diagnosticar.
Não é seu lugar ensinar a diagnosticar.
Sua tarefa é escutar e sustentar a transferência, permitindo que o sujeito diga o que puder dizer.

A Psicanálise se fortalece quando seus praticantes respeitam seus próprios limites. A escuta analítica não precisa de diagnósticos. Precisa de silêncio, ética e presença.


Referências

  • Freud, S. (1926). A questão da análise leiga. In: Obras completas, vol. 20. Rio de Janeiro: Imago.

  • Lacan, J. (1958). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

  • Brasil. Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962.

  • Safra, G. (1999). A função do diagnóstico na psicanálise. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 2, n. 3.

  • Rocha, Z. (2008). A escuta e o silêncio: entre o dizer e o calar em Psicanálise. Belo Horizonte: Autêntica.

  • Ribeiro, A. (2004). A ética na clínica psicanalítica. São Paulo: Escuta.


Sobre o autor

Elielberth Falcão é psicanalista clínico, professor e supervisor. É autor do livro Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos (Editora Santorini). Atua como coordenador clínico e formador de psicanalistas, com ênfase na ética da escuta e no rigor da formação. É também estudante de Psicologia pela UNIGRANRIO-Afya 



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