Responsabilidade ou Projeção? Quando o Cuidado com o Outro Escancara a Falta de Si

 

Responsabilidade ou Projeção? Quando o Cuidado com o Outro Escancara a Falta de Si

Por Elielberth Falcão
Autor de Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e NARCISISMO num COMPÊNDIO CLÍNICO (Editora Santorini)


“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”
(Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe)

Essa frase tão conhecida e, em certa medida, romântica, guarda uma complexidade que, aos olhos da psicanálise, merece um olhar clínico mais demorado. Afinal, será que toda forma de responsabilidade afetiva é expressão de amor genuíno? Ou será que, por trás de um cuidado excessivo com o outro, pode existir uma tentativa inconsciente de ser cuidado?

🧠 Quando cuidar é uma defesa contra o próprio desamparo

Na clínica, encontramos muitos sujeitos que vivem em função do outro: pais que anulam seus desejos pelos filhos, cônjuges que "se entregam completamente", cuidadores que se desgastam para "salvar" alguém. À primeira vista, parecem altruístas. Mas, em muitos casos, o excesso de responsabilidade revela um desejo deslocado de proteção de si mesmo.

Freud já nos alertava, em seus primeiros textos, que o sintoma pode funcionar como uma solução psíquica provisória diante de um conflito. E cuidar do outro pode ser exatamente isso: uma formação reativa diante do próprio sentimento de abandono, insuficiência ou vazio.

O sujeito se responsabiliza pelo outro porque não suporta ser confrontado com a própria falta. No lugar de pedir ajuda, ajuda; no lugar de expor sua vulnerabilidade, fortalece o outro.


🧩 Exemplo clínico (material adaptado para fins didáticos)

Lívia (nome fictício), 34 anos, procurou análise após um episódio de exaustão emocional. Enfermeira, casada, mãe de dois filhos, e profundamente envolvida com causas sociais, ela dizia:

“Eu preciso estar bem, porque todo mundo depende de mim.”

Ao longo do processo, surgiram lembranças da infância: a mãe ausente, o pai alcoólatra, e a responsabilidade precoce de cuidar dos irmãos mais novos. Lívia nunca aprendeu a ser cuidada — apenas a cuidar.

A cada movimento transferencial em que o setting lhe oferecia acolhimento, ela reagia devolvendo atenção ao analista, perguntando:

“E você, está bem?”

Com o tempo, pôde perceber que sua necessidade de "cativar" e cuidar era, na verdade, um pedido inconsciente de acolhimento. Seu cuidado com o outro era uma defesa contra o medo de ser abandonada. Só então, foi possível construir uma nova posição subjetiva: onde o outro não era mais um espelho de sua carência, mas um outro de fato — separado, autônomo, e não responsável pela sua salvação.


🧬 A busca do outro como projeção do ideal

Lacan nos ajuda a pensar esse movimento como uma tentativa de completar a falta estrutural do sujeito. Ao investir no outro como portador de sentido — “aquele a quem eu cuido”, “aquele por quem me sacrifico” — o sujeito inconscientemente procura aquilo que lhe falta em si. O outro vira espelho, cenário, instrumento.

Nesse sentido, cativar o outro pode ser uma forma de se proteger daquilo que Freud chamou de desamparo primordial (Hilflosigkeit): o estado em que o sujeito, ainda bebê, se vê totalmente dependente do Outro materno para sobreviver.


🧭 Caminhos possíveis em análise

A escuta analítica possibilita que esse sujeito, antes ocupado em sustentar o outro, possa começar a sustentar seu próprio desejo. Isso não significa abandonar vínculos afetivos, mas sim reconduzi-los a um lugar menos idealizado e menos dependente.

Responsabilizar-se pelo outro, sim — mas sem esquecer da própria responsabilidade por si.

A análise ajuda o sujeito a perguntar, enfim:
“Será que estou cativando para amar? Ou para não ser esquecido?”


📚 Referências

  • Freud, S. (1917). Luto e Melancolia. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIV.

  • Freud, S. (1926). Inibição, Sintoma e Angústia.

  • Lacan, J. (1953-54). Os Escritos Técnicos de Freud. Seminário, Livro 1.

  • Winnicott, D. W. (1960). A Preocupação Materna Primária. In: O Brincar e a Realidade.

  • Saint-Exupéry, A. de. (1943). O Pequeno Príncipe.

  • Green, A. (2005). O Complexo de Intrusão e o Vínculo Inconsciente.


✍️ Sobre o autor

Elielberth Falcão é psicanalista clínico, professor e escritor. É autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e NARCISISMO num COMPÊNDIO CLÍNICO, ambos publicados pela Editora Santorini. Atua com formação de psicanalistas, supervisão clínica e produção de conteúdo psicanalítico acessível para estudantes, clínicos e interessados na escuta da alma humana.



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