O Amor como Truque da Falta e da Recusa: Uma Leitura Clínica à Luz de Lacan

 

Falta Recusa

O Amor como Truque da Falta e da Recusa: Uma Leitura Clínica à Luz de Lacan

Introdução

Na tradição psicanalítica, o amor sempre ocupou uma posição paradoxal. Freud o reconheceu como fenômeno que beira tanto a sublimação quanto a repetição do desamparo. Lacan, por sua vez, radicaliza a questão ao afirmar: “o amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Nessa máxima, condensam-se dois polos fundamentais: a falta e a recusa. Este artigo busca articular esses dois polos na clínica contemporânea, evidenciando como o amor romântico pode funcionar como um "truque" para contornar a tragédia existencial da não completude.

O Sujeito da Falta

Exegese clínica: O sujeito, ao se constituir, é atravessado pela experiência da castração simbólica: não há plenitude em si mesmo. Essa incompletude, ou falta, é estruturante, pois abre o campo do desejo. No entanto, em vez de aceitar a própria condição de sujeito desejante e faltante, muitos buscam tamponar essa fissura na ilusão de que o outro poderá oferecer o que não se encontra em si.

Aplicação clínica: Na prática, vemos sujeitos que se lançam em relações amorosas com o peso de uma demanda impossível: encontrar no outro o que não suportam reconhecer em si mesmos. O amor romântico, assim, se traveste de solução para a angústia da falta, mas acaba se revelando um truque frágil e repetitivo.

O Sujeito da Recusa

Exegese clínica: Se o sujeito da falta busca, o sujeito da recusa sustenta a negativa: o outro não pode, não quer, não deve ocupar o lugar de resposta absoluta ao vazio. Essa recusa é constitutiva, pois o desejo do outro nunca se oferece em coincidência plena com a demanda.

Aplicação clínica: O encontro amoroso revela-se marcado pela não correspondência. O sujeito, ao oferecer o que não tem, defronta-se com a recusa do outro, que jamais poderá satisfazer de forma totalizante. É nessa tensão que se instaura o drama do amor: amar é insistir num impossível.

O Amor como Truque

O amor romântico, em sua idealização cultural, opera como uma forma de evitar a tragédia da solidão ontológica. Cria-se a ilusão de que é possível fundir-se com o outro, dissolvendo a falta. No entanto, essa operação é apenas um truque, pois o sujeito retorna sempre ao mesmo ponto: a impossibilidade de encontrar no outro a chave da própria felicidade.

Assim, o amor não é solução para a falta, mas uma cena em que a falta se encena, se repete e se reinscreve. O risco clínico é que, ao chamar essa dinâmica de "amor", o sujeito se perca em relações de dependência, ressentimento e responsabilização do outro por aquilo que nunca poderá ser dado.

Considerações Finais

Lacan nos lembra que a experiência amorosa está condenada à insuficiência, mas é justamente nessa insuficiência que se desenha sua verdade. O amor não é resposta ao vazio, mas uma forma de lidar com ele. Reconhecer o truque não significa desprezar o amor, mas reposicioná-lo como experiência de limite: amar é confrontar-se com a falta e com a recusa, sem cair na ilusão da completude.


Biografia do Autor

Elielberth Falcão é escritor, professor e psicanalista clínico. Acadêmico em Psicologia pela UNIGRANRIO, é autor de Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e NARCISISMO num COMPÊNDIO CLÍNICO, ambos pela Editora Santorini e diversas produções acadêmicas na área da psicanálise. Atua como docente em institutos de formação em psicanálise, com ênfase em teoria e clínica contemporânea.


Referências

  • Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

  • Freud, S. (1921). Psicologia das massas e análise do eu. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

  • Lacan, J. (1960). Seminário, livro 8: A transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

  • Lacan, J. (1972-1973). Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1982.

  • Miller, J.-A. (1998). Introdução à leitura de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.


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