A CLÍNICA PSICANALÍTICA E O SUJEITO DIAGNOSTICADO COMO BORDERLINE: ENTRE O VAZIO, O EXCESSO E A POSSIBILIDADE DE ESCUTA

 


A CLÍNICA PSICANALÍTICA E O SUJEITO DIAGNOSTICADO COMO BORDERLINE: ENTRE O VAZIO, O EXCESSO E A POSSIBILIDADE DE ESCUTA

Resumo

Este artigo discute a abordagem psicanalítica no trabalho com pacientes diagnosticados como borderline pela psiquiatria, destacando que a Psicanálise não se centra no diagnóstico, mas na escuta singular do sujeito. A partir de referências em Freud, Lacan e Jung, bem como da experiência clínica do autor, busca-se compreender a constituição psíquica desses sujeitos marcada por traços de vazio, dependência e excessos emocionais. Serão analisados casos clínicos nos quais a presença de mães com traços esquizofrênicos e a ausência paterna configuraram determinantes importantes na formação subjetiva.

Palavras-chave: Psicanálise; Borderline; Freud; Lacan; Jung; Clínica.


Introdução

A categoria "borderline", surgida no campo psiquiátrico, ganhou força no século XX como diagnóstico que designa sujeitos oscilando entre neuroses graves e estados psicóticos. Na clínica psicanalítica, entretanto, não há privilégio para o diagnóstico, mas para o sujeito e sua história. Assim, trabalhar com pessoas que chegam diagnosticadas como borderline exige deslocar o olhar da etiqueta psiquiátrica para a investigação do lugar do desejo, do trauma e da constituição psíquica.


1. A Psicanálise e o lugar do sujeito

Freud

Freud já advertia que a nosologia, por si só, não é suficiente para compreender o sofrimento humano:

“Em Psicanálise, o importante não é o nome que se dá à doença, mas o sentido que o sintoma tem para o sujeito.” (FREUD, 1917/1996, Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, p. 435).

Em muitos casos de estados-limite, Freud observou que as dificuldades vinham de falhas no investimento parental e nos primeiros vínculos afetivos.

Lacan

Lacan avançou nessa reflexão ao situar o sujeito do inconsciente como efeito da linguagem e da estrutura simbólica:

“O inconsciente é estruturado como uma linguagem.” (LACAN, 1964/1998, O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p. 203).

Na clínica borderline, a oscilação entre neurose e psicose mostra justamente a fragilidade das amarras simbólicas.

Jung

Jung, por sua vez, contribuiu ao observar que:

“Aquilo que não vem à consciência retorna como destino.” (JUNG, 1954/2011, Aion: Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo, §126).

No borderline, o que não pôde ser elaborado na infância retorna em forma de acting out, rupturas afetivas e crises emocionais.


2. A clínica do borderline: entre o vazio e o excesso

Em minha prática clínica, recebo pacientes diagnosticados pela psiquiatria como borderline, frequentemente medicalizados, que chegam com relatos de vazio existencial, acessos emocionais descontrolados e extrema dependência do outro.

Exemplo clínico 1 (mãe esquizofrênica)

Uma paciente relatava constantes estados de angústia e medo de abandono. Durante a investigação, emergiu a lembrança de uma infância marcada por uma mãe com fortes traços esquizofrênicos, cujas crises produziam um ambiente caótico. Essa vivência instaurou um sentimento permanente de instabilidade psíquica.
Intervenção psicanalítica: Ao invés de nomear a paciente como “borderline”, buscamos reconstruir, através da fala, a cena infantil e os significantes que moldaram sua subjetividade. O trabalho se centrou em oferecer um espaço de simbolização onde antes havia apenas excesso e ruído.

Exemplo clínico 2 (pai ausente)

Outro paciente apresentava repetidas rupturas em relações afetivas, sempre sentindo um “buraco” impossível de ser preenchido. Ao reconstruir sua história, descobriu-se a figura de um pai ausente, distante tanto física quanto afetivamente.
Intervenção psicanalítica: A escuta visou possibilitar a emergência da queixa como expressão de um desejo recalcado. O vazio, antes sentido como falha, foi ressignificado como lugar de elaboração simbólica.


3. Discussão: mãe esquizofrênica, pai ausente e a constituição psíquica

A experiência clínica confirma que muitas estruturas borderline emergem em contextos familiares onde há falha radical na função materna ou paterna. Freud já assinalava a importância dos primeiros vínculos:

“Na origem de todo sintoma se encontra uma história infantil, frequentemente ligada às primeiras figuras parentais.” (FREUD, 1905/1996, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, p. 156).

Lacan reforçou o papel da função paterna como instauradora da lei simbólica:

“É o Nome-do-Pai que funda a função simbólica no lugar do Outro.” (LACAN, 1957/1999, Escritos, p. 256).

A ausência do pai, associada a uma mãe tomada por delírios, compromete a inscrição simbólica do sujeito, deixando-o à mercê do gozo materno ou entregue ao vazio. Jung, por sua vez, lembrou que a individuação só é possível quando o sujeito encontra uma via de elaboração de sua sombra e de seus traumas.


Considerações finais

A clínica psicanalítica com sujeitos diagnosticados como borderline exige um deslocamento fundamental: não confirmar a etiqueta diagnóstica, mas permitir que o sujeito fale e se reconheça como autor de sua própria história. A investigação da infância, os vínculos primários e as falhas estruturantes mostram-se caminhos fecundos para compreender o sofrimento borderline. A Psicanálise, ao não diagnosticar, oferece o privilégio da escuta singular e a possibilidade de ressignificação da vida psíquica.


Referências

FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (1917). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. XV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

JUNG, Carl Gustav. Aion: Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo (1954). Petrópolis: Vozes, 2011.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

LACAN, Jacques. Escritos (1957). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.


Perfil Acadêmico

Elielberth Falcão é psicanalista didata, professor de Psicanálise e pesquisador. Autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e Narcisismo num Compêndio Clínico, ambos publicados pela Editora Santorini. É docente em instituições de ensino psicanalítico, ministrando disciplinas relacionadas à psicanálise clássica e contemporânea. Atualmente é acadêmico de Psicologia na Universidade UNIGRANRIO-AFYA.


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