A repetição nunca se move no mesmo lugar
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
A repetição nunca se move no mesmo lugar
Introdução
A noção de repetição tem sido objeto de reflexão tanto na filosofia quanto na psicanálise. De Kierkegaard a Deleuze, passando por Freud e Lacan, a repetição aparece como um fenômeno paradoxal: ao mesmo tempo em que remete a um retorno, nunca é um simples “voltar ao mesmo”. Nesse sentido, a frase “a repetição nunca se move no mesmo lugar” sintetiza uma verdade essencial: cada ato de repetição, ainda que aparente circularidade, carrega consigo diferença, deslocamento e possibilidade de transformação.
Repetição na filosofia e na psicanálise
-
Filosofia: Kierkegaard (1843/2010) já indicava que a repetição é uma categoria existencial ligada à possibilidade de renovação. Deleuze (1968/2006) reforça que toda repetição é, em si mesma, diferença. Não há reprodução pura do idêntico.
-
Psicanálise: Freud, em Além do princípio do prazer (1920/2010), introduz a noção de compulsão à repetição, onde o sujeito retorna, de maneira aparentemente invariável, a situações dolorosas ou traumáticas. Entretanto, cada repetição abre a chance de elaborar o trauma, ainda que inconscientemente. Lacan amplia esta concepção ao articular a repetição ao real e à tentativa do sujeito de simbolizar aquilo que lhe escapa.
Assim, em ambas as vertentes, repete-se, mas nunca de forma estática. O tempo, o sujeito e as condições mudam.
Exemplo clínico
Uma paciente buscava tratamento por se envolver repetidamente em relacionamentos abusivos. Ela mesma reconhecia que “sempre caía no mesmo tipo de pessoa”. À primeira vista, parecia uma volta eterna ao mesmo lugar. Entretanto, na análise, percebeu-se que cada relação trazia nuances diferentes: a forma como ela se posicionava, as justificativas que elaborava, o nível de tolerância e até as saídas encontradas.
Nesse processo, a repetição não era idêntica; ela revelava camadas do não-dito e permitia à paciente construir simbolizações inéditas. Foi justamente ao reconhecer que “não estava no mesmo lugar” que ela pôde dar um passo em direção ao rompimento do padrão e à possibilidade de novos laços mais saudáveis.
Ressalvas necessárias
É importante destacar que:
-
A repetição pode aprisionar – quando não há elaboração, o sujeito pode permanecer em círculos de sofrimento.
-
A repetição também educa – no espaço clínico, permite ao analista e ao analisando observar o movimento de retorno como possibilidade de interpretação e mudança.
-
A repetição não garante transformação – é preciso trabalho analítico, já que o simples retorno, sem elaboração, tende a reafirmar o gozo no sintoma.
Portanto, dizer que a repetição nunca se move no mesmo lugar não significa que ela seja sempre libertadora, mas que, mesmo no retorno, há brechas de deslocamento e de diferença.
Conclusão
A repetição, longe de ser uma prisão estática, é um campo dinâmico de produção de diferença. A frase “a repetição nunca se move no mesmo lugar” convida a olhar para o retorno não como cópia, mas como atualização. Na clínica, isso significa reconhecer que cada repetição, ainda que dolorosa, pode ser uma chance de elaboração e abertura para o novo.
Biografia do autor
Elielberth Falcão é Escritor, autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e Narcisismo num Compêndio Clínico, ambos publicados pela Editora Santorini. Acadêmico em Psicologia pela Universidade UNIGRANRIO Afya Campus-Caxias-RJ, é professor de psicanálise em várias escolas, além de psicanalista clínico e didata com ampla experiência em supervisão e ensino.
Referências
-
Deleuze, G. (2006). Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Graal. (Trabalho original publicado em 1968).
-
Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. In: Obras Completas, v. 14. São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1920).
-
Kierkegaard, S. (2010). A repetição. Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1843).
-
Lacan, J. (1998). Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário