OCEANO/Djavan/Música - Uma Análise Psicanalítica da Paixão e da Falta

Oceano de Djavan:

OCEANO/Djavan/Música 

Uma Análise Psicanalítica da Paixão e da Falta


Por: Elielberth Falcão

Introdução:

A música 'Oceano' de Djavan, com sua melodia envolvente e letra poética, oferece um terreno fértil para uma análise psicanalítica. 

As declarações do eu-lírico, repletas de anseios, perdas e dependência afetiva, podem ser interpretadas como manifestações de conteúdos recalcados e dinâmicas inconscientes.

Abordaremos essa canção sob as lentes de Sigmund Freud e Jacques Lacan, buscando desvendar as camadas psíquicas que permeiam a experiência do amor e da falta.

A Letra e a Experiência da Perda e Solidão Letra: Assim que o dia amanheceu lá

No mar alto da paixão

Dava pra ver o tempo ruir

Cadê você? Que solidão!

Esquecera de mim Enfim, de tudo o que há na terra

Não há nada em lugar nenhum...

Que vá crescer sem você chegar

Longe de ti, tudo parou

Ninguém sabe o que eu sofri ...

Amar é um deserto e seus temores

Vida que vai na sela dessas dores

Não sabe voltar, me dá teu calor...

Vem me fazer feliz, porque eu te amo

Você deságua em mim, e eu, oceano

E esqueço que amar é quase uma dor, Só sei viver se for por você...


Análise Freudiana: 

O Recalcado e o Princípio do Prazer/Realidade 

Os versos iniciais, "Assim que o dia amanheceu lá / No mar alto da paixão / Dava pra ver o tempo ruir / Cadê você? Que solidão! / Esquecera de mim..."

Evocam uma ruptura, uma perda súbita que desorganiza o eu-lírico. Do ponto de vista freudiano, essa experiência de abandono e solidão pode ser lida como um trauma, um evento que abala o equilíbrio psíquico e que, por sua intensidade, pode ser recalcado para proteger o ego. 

A repetição da ideia de "solidão" e "esquecera de mim" sugere uma ferida narcísica profunda, onde o objeto de amor é percebido como a fonte de toda a satisfação, e sua ausência, a causa de um sofrimento insuportável.

A frase "Longe de ti, tudo parou / Ninguém sabe o que eu sofri" remete à fixação libidinal. 

O eu-lírico parece ter investido toda a sua energia psíquica no objeto amado, a ponto de sua ausência paralisar sua existência. Essa dependência extrema pode ser um indicativo de uma regressão a estágios mais primitivos do desenvolvimento, onde a satisfação das necessidades estava intrinsecamente ligada à presença do outro. 

O "ninguém sabe o que eu sofri" aponta para a natureza subjetiva e muitas vezes incomunicável do sofrimento psíquico, especialmente aquele que se origina de conteúdos inconscientes.

O refrão "Amar é um deserto e seus temores / Vida que vai na sela dessas dores / Não sabe voltar, me dá teu calor / Vem me fazer feliz, porque eu te amo / Você deságua em mim, e eu, oceano / E esqueço que amar é quase uma dor..." 

É particularmente rico. A metáfora do "deserto" e dos "temores" ilustra a ambivalência do amor, que, embora desejado, é também fonte de angústia e dor. 

A busca incessante pelo "calor" do outro e a declaração "Só sei viver se for por você" revelam uma fusão desejada, onde o eu-lírico busca anular a própria individualidade na completude do outro. 

A frase "esqueço que amar é quase uma dor" é um mecanismo de defesa, uma tentativa de recalcar a dimensão dolorosa do amor em prol da satisfação imediata, operando sob o princípio do prazer, mesmo que a realidade (o "quase uma dor") insista em se manifestar.

W.Von.Y, um paciente de 40 anos, chega à clínica com queixas de um vazio existencial profundo após o término de um relacionamento de longa data. Ele repete constantemente: "Minha vida parou sem ela". Durante as sessões, W.Von.Y revela sonhos recorrentes onde se vê em um deserto, sozinho e sem direção. 

A análise freudiana aponta para um forte investimento libidinal na figura da ex-parceira, que funcionava como um objeto de satisfação total, encobrindo uma fragilidade narcísica pré-existente. 

O término do relacionamento reativou um trauma de abandono infantil, levando-o a uma regressão e à manifestação de um sofrimento que, embora consciente, tem raízes em conteúdos recalcados de sua história. 

O trabalho analítico visa a elaboração desse luto e a ressignificação da perda, permitindo que W.Von.Y reconheça sua própria capacidade de investir em si e em outros objetos, para além da dependência fusional. 

Análise Lacaniana: 

O Desejo, a Falta e o Grande Outro Na perspectiva lacaniana, a música 'Oceano' pode ser lida como uma manifestação do desejo e da falta que o estrutura. O "Cadê você? Que solidão!" não é apenas a ausência do outro concreto, mas a emergência da falta constitutiva do sujeito. 

O eu-lírico busca no outro a completude que lhe falta, um preenchimento para o vazio inerente à sua existência. O "mar alto da paixão" pode ser interpretado como o campo do Imaginário, onde o sujeito se ilude com a imagem de uma fusão perfeita com o objeto amado, uma fantasia de unidade que promete a abolição da falta.

A declaração "Você deságua em mim, e eu, oceano" é a expressão máxima dessa fantasia fusional. O eu-lírico deseja ser o "oceano" que absorve o outro, apagando as fronteiras entre os dois, em uma tentativa de alcançar o gozo (jouissance) absoluto. 

No entanto, Lacan nos ensina que o gozo é sempre excessivo e, em última instância, inatingível em sua totalidade, pois o desejo é sempre desejo do Outro e se move em torno de um objeto (objeto a) que é irrecuperável. 

A "dor" mencionada na letra, mesmo que "quase", é a irrupção do Real, o ponto onde a fantasia de completude se choca com a impossibilidade de sua realização plena.

A frase "Só sei viver se for por você" demonstra a alienação do sujeito no desejo do Outro. O eu-lírico se constitui a partir do que ele percebe ser o desejo do outro, perdendo sua própria subjetividade. 

A busca incessante pelo outro como garantia de existência revela a dimensão do Grande Outro (A) como o lugar da linguagem e da lei, que estrutura o desejo e, ao mesmo tempo, impõe a falta. 

A solidão e o sofrimento são, portanto, não apenas a ausência do objeto, mas a confrontação com a própria castração simbólica, a impossibilidade de ser completo.

C.De.S, uma jovem de 25 anos, relata em análise uma série de relacionamentos onde se sente "perdida" sem o parceiro. Ela descreve uma sensação de "não ser ninguém" quando está sozinha. 

A análise lacaniana revela que C.De.S se constitui no campo do Imaginário, buscando no "pequeno outro" (o parceiro) o espelho que lhe confere uma identidade. Sua fala é atravessada por um desejo de fusão, onde o outro é o suposto detentor do objeto que a completaria. 

A repetição desses padrões relacionais aponta para a alienação no desejo do Outro, onde C.De.S busca no parceiro o que ela acredita que o Grande Outro (a sociedade, a família, o ideal de amor) espera dela.

O trabalho analítico visa a que C.De.S possa se desalienar desse desejo do Outro, reconhecendo a falta como estruturante e construindo sua própria posição de sujeito, para além da ilusão de completude no outro.

Conclusão:

'Oceano' de Djavan, sob a ótica psicanalítica, transcende a simples canção de amor para se tornar um rico material para a compreensão das complexas dinâmicas do psiquismo humano. 

A letra revela a manifestação de conteúdos recalcados, a busca incessante pela satisfação e a confrontação com a falta inerente à condição humana. 

Através das lentes de Freud e Lacan, percebemos como o amor, em sua intensidade, pode tanto ser fonte de gozo quanto de dor, e como o sujeito se debate entre a ilusão de completude e a realidade da castração. 

A canção, assim, nos convida a mergulhar nas profundezas do inconsciente, onde o "oceano" da paixão se encontra com os "desertos" da existência.

Sobre o autor

Elielberth Falcão é psicanalista clínico, professor e supervisor. É autor do livro Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos (Editora Santorini). Atua como coordenador clínico e formador de psicanalistas, com ênfase na ética da escuta e no rigor da formação. É também estudante de Psicologia pela UNIGRANRIO-Afya 


Referências Bibliográficas

•Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago.

•Freud, S. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.

•Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

•Lacan, J. (1959-1960). O Seminário, Livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

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