Nem Toda Projeção é Defensiva: Uma Leitura Psicanalítica

 


Nem Toda Projeção é Defensiva: Uma Leitura Psicanalítica

Introdução

Na tradição psicanalítica, o termo projeção costuma ser rapidamente associado à defesa: aquilo que o sujeito não suporta em si, ele localiza no outro. Contudo, essa compreensão, embora correta em parte, é reduzida se não ampliarmos o campo de significação do conceito. A projeção, desde Freud até os pós-freudianos, não é apenas uma defesa, mas uma função estruturante do psiquismo, com desdobramentos criativos e constitutivos.


1. A Projeção como Função Constitutiva

Exegese teórica:
Freud (1895) já apontava que, nos primórdios da vida psíquica, o bebê não distingue claramente o dentro do fora. Em seus primeiros movimentos psíquicos, atribui ao objeto externo as sensações internas. Klein (1946) ampliou essa visão ao formular a noção de identificação projetiva, pela qual o bebê deposita partes de si no objeto, organizando a realidade.

Exemplo clínico:
Em supervisão, observamos pacientes que descrevem o mundo como “frio” ou “hostil”, quando na verdade revelam seus próprios afetos desorganizados. A projeção aqui não visa a defesa propriamente dita, mas uma tentativa primária de organizar a experiência subjetiva.

Atividade em sala de aula:
Costumo propor que os alunos imaginem o bebê atribuindo ao seio materno tanto o prazer quanto a frustração. Ao se dizer: “o seio é mau porque não veio”, já está em ato uma projeção constitutiva do mundo externo.


2. A Projeção Criativa

Exegese teórica:
A projeção não se limita ao registro defensivo. Ela também aparece como potência criadora. Freud (1907), em seu texto sobre a arte, já reconhecia no processo criativo uma forma sublimada de lidar com conteúdos inconscientes. Winnicott (1971/1975) também descreve o fenômeno da projeção na experiência cultural, como lugar intermediário entre realidade interna e externa.

Exemplo clínico:
Uma paciente, ao narrar seus sonhos, criava imagens tão poéticas que pareciam fragmentos de contos. O trabalho analítico ajudou-a a perceber que essas imagens eram modos criativos de projetar conflitos internos, convertendo dor em simbolização.

Atividade em sala de aula:
Peço aos alunos que escrevam pequenas histórias a partir de um afeto pessoal. Muitas vezes, observamos que sentimentos como medo ou raiva são projetados em personagens fictícios, mostrando como a projeção pode servir à elaboração criativa.


3. A Projeção Defensiva

Exegese teórica:
É na clínica cotidiana que mais facilmente encontramos a projeção como defesa. Freud (1894) descreveu a projeção como um mecanismo que desloca para o outro aquilo que não pode ser reconhecido no eu. No campo kleiniano, a projeção defensiva aparece como expulsão de conteúdos persecutórios, aliviando temporariamente a angústia interna.

Exemplo clínico:
Em atendimento, um paciente muito hostil acusava todos ao redor de serem agressivos consigo. No desenrolar da análise, ficou claro que tal percepção era a projeção de sua própria hostilidade não reconhecida. Aqui, a projeção funcionava como escudo defensivo, evitando o contato com a própria agressividade.

Atividade em sala de aula:
Proponho uma dinâmica em que cada aluno descreve “como percebe o grupo”. Frequentemente surgem frases como: “o grupo é competitivo” ou “o grupo é distante”. Ao refletirmos, os próprios alunos reconhecem que estão projetando seus afetos internos no coletivo. Este exercício evidencia como a projeção defensiva atua na vida cotidiana.


Conclusão

A projeção é um conceito multifacetado. Reduzi-la ao campo da defesa é empobrecer sua complexidade.

  • Como função constitutiva, organiza a relação do sujeito com o mundo.

  • Como potência criativa, possibilita arte, cultura e expressão.

  • Como mecanismo defensivo, protege contra conteúdos intoleráveis.

Dessa forma, compreender a projeção em sua pluralidade permite uma escuta clínica mais refinada e uma prática formativa mais fiel à riqueza da psicanálise.


Referências

  • Freud, S. (1894/1996). As neuropsicoses de defesa. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. III. Rio de Janeiro: Imago.

  • Freud, S. (1895/1996). Projeto para uma psicologia científica. ESB, vol. I. Rio de Janeiro: Imago.

  • Freud, S. (1907/1996). Escritores criativos e devaneios. ESB, vol. IX. Rio de Janeiro: Imago.

  • Klein, M. (1946/1991). Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In: Inveja e gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago.

  • Winnicott, D. W. (1971/1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.


Sobre o Autor

Prof. Elielberth Falcão – Psicanalista clínico, didata e professor. Atua no ensino e supervisão de psicanálise, com experiência em clínica individual e em grupo. É autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e Narcisismo num Compêndio Clínico(Editora Santorini). Leciona Psicanálise Contemporânea e Psicanálises em diferentes instituições.


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