Da Empatia à Conexão: uma crítica psicanalítica

 


Da Empatia à Conexão: uma crítica psicanalítica

Resumo

A noção de empatia é frequentemente entendida como a capacidade de “se colocar no lugar do outro”. Contudo, sob a ótica psicanalítica, tal concepção mostra-se problemática, pois implica a possibilidade de suspensão da subjetividade, algo impossível ao sujeito atravessado pela linguagem e pelo inconsciente. Este artigo propõe uma crítica ao conceito tradicional de empatia e sugere, em substituição, os termos conexão e sintonia, que permitem uma abordagem mais ética e coerente com a escuta psicanalítica.

Palavras-chave: Empatia. Conexão. Sintonia. Psicanálise.


Introdução

Na cultura contemporânea, a empatia é exaltada como virtude essencial. Comumente definida como a capacidade de “entrar no lugar do outro” ou “sentir o que o outro sente”, tornou-se atributo moralmente valorizado. Entretanto, à luz da psicanálise, essa definição apresenta impasses teóricos e clínicos.

A questão que se coloca é: é possível realmente estar no lugar do outro sem incorrer em fusão ou projeção patológica?. Este artigo propõe uma crítica ao uso indiscriminado do termo “empatia” e aponta para conceitos alternativos, como conexão e sintonia, que preservam a diferença e se aproximam da ética psicanalítica.


A crítica à empatia: o impasse da subjetividade

Freud (1921/1996) destaca, em Psicologia das Massas e Análise do Ego, que a identificação constitui a forma mais primitiva de laço afetivo entre sujeitos. Contudo, trata-se de um processo parcial e fragmentado, jamais total:

“A identificação é conhecida como a mais antiga manifestação de um laço afetivo com outra pessoa” (FREUD, 1921/1996, p. 107).

Isso significa que, ao contrário do ideal empático de fusão, só é possível uma aproximação incompleta e sempre marcada pelo inconsciente.

Quando um sujeito acredita sentir exatamente o que o outro sente, dois riscos emergem:

  1. Fusão patológica – o Eu se dissolve na experiência alheia, perdendo seus próprios contornos.

  2. Projeção narcísica – em vez de compreender o outro, o sujeito apenas projeta nele seus próprios conteúdos inconscientes.

Nesse sentido, Lacan (1966/1998) enfatiza que “o desejo do homem é o desejo do Outro” (p. 690), lembrando que nunca há coincidência plena entre sujeitos. Há sempre um resto inassimilável que impede a fusão total. Logo, a ideia de empatia plena é uma ilusão.


A proposta psicanalítica: conexão e sintonia

Para além do impasse, é possível pensar em alternativas conceituais mais consistentes. Ao invés de “empatia”, sugerem-se conexão e sintonia.

  • Conexão: consiste em estabelecer um laço simbólico em que o sujeito reconhece a alteridade sem a pretensão de ocupá-la. Não se trata de fusão, mas de reconhecimento do outro como diferente.

  • Sintonia: aproxima-se da concepção winnicottiana de um “ambiente suficientemente bom”. Para Winnicott (1965, p. 73), o papel do ambiente é “acompanhar o processo maturacional do indivíduo” sem sobrepor-se a ele. Trata-se de estar em presença, atento e responsivo, mas sem confundir-se com a subjetividade do outro.

Assim, ao invés de tentar “ser o outro”, a psicanálise propõe sustentar um espaço de escuta e presença que permita ao sujeito existir como tal.


Implicações clínicas

Na clínica psicanalítica, o analista não deve se colocar no lugar do paciente para sentir em seu lugar. Essa postura, além de ilusória, poderia gerar confusões narcísicas. Ao contrário, o analista sustenta uma escuta que respeita a singularidade do paciente.

Freud (1912/1996), em Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, afirma que o analista deve adotar uma “atenção uniformemente suspensa” (p. 149), isto é, não se identificar totalmente com o analisando, mas manter-se aberto àquilo que surge na transferência.

Portanto, ao invés da empatia entendida como fusão, o analista deve manter uma postura de conexão e sintonia:

  • Conectar-se ao paciente pela escuta ética, não pela ilusão de fusão.

  • Estar em sintonia com os movimentos inconscientes, acolhendo silêncios, lapsos e resistências.

  • Preservar a diferença, sustentando o espaço para que o sujeito se diga.


Conclusão

A concepção popular de empatia, entendida como “se colocar no lugar do outro”, é insustentável no campo psicanalítico. Trata-se de um conceito que pode levar a fusões patológicas ou a ilusões narcísicas, ambos nocivos à prática clínica.

Como alternativa, propõe-se o uso dos conceitos de conexão e sintonia, que preservam a alteridade e permitem uma escuta verdadeiramente ética. Na psicanálise, não se trata de sentir pelo outro, mas de sustentar as condições para que o outro sinta e elabore por si mesmo.

Sobre o Autor

Elielberth Falcão é psicanalista clínico, didata e professor de Psicanálise. É autor do livro Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos (Editora Santorini) e  Narcisismo num Compêndio Clínico. Atua como docente em cursos de formação psicanalítica, pesquisador das relações entre Psicanálise, Religião e Cultura, além de lecionar disciplinas ligadas à Psicanálise Contemporânea e aos pós-freudianos. Atualmente é professor em institutos de formação psicanalítica e cursa Psicologia na Universidade UNIGRANRIO-Afya 



Referências

FREUD, S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XII.

FREUD, S. Psicologia das Massas e Análise do Ego (1921).  Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XVIII.

LACAN, J. Escritos (1966). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

WINNICOTT, D. W. The Maturational Processes and the Facilitating Environment. London: Hogarth Press, 1965.



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