Anamnese de mim: o EU na 3ª pessoa

 🖋️ Anamnese de mim: o EU na 3ª pessoa


Por Elielberth Falcão


“Tudo o que digo de mim já me escapa. Porque quando digo, já não sou eu — sou o que disse.”
— Roland Barthes

 

A inspiração para este artigo nasceu de forma inusitada. Estava na academia, revisitando mentalmente os apontamentos da aula anterior, quando uma frase da professora voltou à minha consciência com força: “É importante que o sujeito aprenda a se analisar em terceira pessoa.” Estávamos na disciplina de Psicologia do Desenvolvimento: Infância e Adolescência, na Universidade UNIGRANRIO-Afya, Campus Caxias-RJ.

Na hora, compreendi que aquilo ultrapassava a ideia clássica de autoanálise. Era algo mais profundo, mais deslocado, mais instigante. Pensei comigo: “Nossa, que loucura… é como se o sujeito se olhasse de fora, como se fosse dito por um outro.” A frase ficou ressoando. E foi assim, entre um exercício e outro, que surgiu a vontade de escrever este texto — uma tentativa de descrever essa experiência de se narrar a partir de um lugar que não é o da primeira pessoa.


🧠 A anamnese que desorganiza


Na clínica, chamamos de anamnese o momento em que se recuperam os traços, os acontecimentos, os sintomas e as repetições de um sujeito. Mas quando o sujeito decide fazer isso de si para si, corre o risco de cair na armadilha da autojustificação ou da fantasia narcisista de controle.

Por isso, proponho que esse processo se dê em terceira pessoa. Ou seja, como quem recolhe fragmentos de um personagem que se chama "eu", mas que já não se reconhece totalmente nele.

Falar de si em terceira pessoa é suspender a ilusão de domínio. É aceitar que talvez aquilo que vivemos não nos pertença completamente, e que os significados são, em parte, emprestados.


📚 Um sujeito dividido e narrado


Lacan nos ensinou que o sujeito é um efeito da linguagem. Não há um eu substancial a ser encontrado, mas uma cadeia simbólica em constante deslocamento. O sujeito é, ao mesmo tempo, falta e efeito de discurso.

Quando escrevo “ele passou boa parte da infância escondendo a dor para não perder o amor”, estou falando de mim, mas sem a ilusão de que me contenho no que narro. Estou narrando um "eu-espectro", uma presença ausente, um vestígio de linguagem.

“Ele” é o eu exilado. Um eu deslocado da primeira pessoa para que seja ouvido como outro — e então, talvez, reencontrado com mais honestidade.

Freud já havia exercitado essa postura em seus estudos de caso. Ao relatar o “Homem dos Ratos” ou “Dora”, ele escutava o sujeito como texto, como trama sintomática. Era menos o sujeito real que interessava, e mais o sujeito do desejo, da fala, da repetição.


✍️ Escrever-se como quem ausculta


A escrita em terceira pessoa de si mesmo não é negação — é elaboração. Não se trata de fuga, mas de criação de um espaço ético de escuta interna. Um modo de não cair na armadilha da vitimização ou da acusação, tão comuns nas narrativas de si em primeira pessoa.

Ao narrar-me como outro, eu me torno capaz de me escutar sem me interromper. É como se eu abrisse espaço para que meu próprio inconsciente tomasse a palavra.

E aqui entra Winnicott: talvez esse gesto de se narrar em terceira pessoa seja o equivalente, na escrita, ao ambiente suficientemente bom — um espaço potencial de jogo, onde o eu não precisa ser coerente, perfeito ou linear. Pode apenas ser — em fragmentos, em versões, em lapsos.


🪞 Conclusão: quando o eu vira espelho


Este artigo não é uma teoria fechada. É um convite. Um esboço de um caminho que mistura escuta, escrita e elaboração de si. A proposta de uma “anamnese em terceira pessoa” é, antes de tudo, um gesto de humildade diante da própria história.

Porque talvez só consigamos nos ouvir, de fato, quando abrimos mão de falar como donos de nós mesmos.


📖 Referências Bibliográficas
FREUD, S. História de uma neurose infantil (O Homem dos Lobos). Obras completas, vol. XVII. Imago, 1976.
LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
BARTHES, R. Roland Barthes por Roland Barthes. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
RICOEUR, P. Tempo e narrativa. Campinas: Papirus, 1994.


✍️ Sobre o autor


Elielberth Falcão é psicanalista clínico, professor e escritor. Docente em diversas instituições de formação psicanalítica, atua como pensador das interseções entre clínica, linguagem e espiritualidade. É autor de Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e NARCISISMO num COMPÊNDIO CLÍNICO (Editora Santorini, 2023). Acadêmico em Psicologia pela Universidade UNIGRANRIO Afya, Campus Caxias-RJ.



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