Entre o medo e o meio: a descoberta de si como sujeito
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Entre o medo e o meio: a descoberta de si como sujeito
Recentemente, numa conversa com um amigo de longa data, ouvi dele a seguinte frase: “Você mudou bastante”. Ao que respondi: “Talvez eu não tenha mudado, mas esteja apenas me descobrindo”.
Essa breve troca de palavras revelou não apenas uma reflexão pessoal, mas um ponto de grande relevância clínica: afinal, mudamos ou nos descobrimos?
O sujeito entre o meio e o medo
Há uma máxima muito repetida: “somos frutos do meio”. Na psicanálise, é inegável que a constituição subjetiva se dá dentro de um contexto relacional — a família, a cultura, a religião, a escola. Freud (1914), ao falar do narcisismo, mostra como o eu nasce em meio a investimentos que vêm de fora, que moldam e alimentam sua organização psíquica. Winnicott (1960) também reforça a ideia de que o ambiente é condição de possibilidade para que o sujeito possa existir de modo verdadeiro.
Entretanto, no diálogo com meu amigo, arrisquei um deslocamento: “Somos frutos não apenas do meio, mas do medo”. Esse medo não é simplesmente o receio de arriscar, mas a angústia de confrontar a expectativa do outro, de sair da posição de objeto e assumir-se como sujeito. O medo, nesse sentido, funciona como um mecanismo de contenção que adia o gesto autêntico.
O narcisismo funcional e a autenticidade do sujeito
Na clínica, encontro com frequência indivíduos que se percebem como “corpos estranhos” dentro de seus próprios grupos sociais — seja família, comunidade ou até mesmo instituições religiosas. A tensão entre pertencer ao meio e manter a singularidade é permanente.
Aqui, o conceito de narcisismo funcional ganha relevância. Diferente do narcisismo patológico, que fecha o sujeito em si mesmo, o narcisismo funcional — expressão que retomo em minhas pesquisas — refere-se à capacidade de autopreservação e de sustentação da própria identidade frente às demandas externas. Trata-se de um narcisismo que não nega o outro, mas permite ao sujeito manter-se de pé, “de bem consigo mesmo e com a opinião alheia”, como disse a meu amigo.
Essa perspectiva encontra eco em autores como Green (1988), ao falar das funções do narcisismo na manutenção da vida psíquica, e também em Freud (1921), quando discute a psicologia das massas: é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre identificação com o grupo e afirmação de si.
O descobrimento de si
O que parece ser mudança, na verdade, muitas vezes é apenas um desvelamento do sujeito. Descobrir-se é retirar as camadas de medo que encobrem desejos, ideias e palavras que sempre estiveram ali. O desafio clínico e existencial consiste em aprender a habitar o meio sem perder a si mesmo.
Ser sujeito de si é uma tarefa complexa, mas necessária. Não significa negar a cultura, nem romper vínculos, mas sustentar a própria voz no interior do grupo, ainda que isso cause certo estranhamento.
Como escrevi a meu amigo, talvez eu não tenha mudado; apenas tenha perdido o medo de dizer o que sempre desejei dizer. E, nesse processo, descobri que viver não é se afastar do meio, mas aprender a ser sujeito nele.
Referências
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FREUD, S. (1914/1996). Introdução ao narcisismo. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago.
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FREUD, S. (1921/1996). Psicologia das massas e análise do eu. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago.
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GREEN, A. (1988). Narcisismo de vida, narcisismo de morte. Rio de Janeiro: Imago.
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WINNICOTT, D. W. (1960/1990). Ego distortions in terms of true and false self. In: The Maturational Processes and the Facilitating Environment. London: Karnac Books.
Sobre o autor
Elielberth Falcão é psicanalista clínico, didata e professor, graduando em Psicologia pela Universidade UNIGRANRIO-Afya. Autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e Narcisismo num Compêndio Clínico pela Editora Santorini, atua como docente em Psicanálise.
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