Fracasso e Sucesso: Uma Leitura Psicanalítica entre a Desistência e a Queda

Fracasso e Sucesso: Uma Leitura Psicanalítica entre a Desistência e a Queda


Por Elielberth Falcão


Em minha prática clínica ao longo dos anos, tenho refletido sobre o modo como o sujeito nomeia e organiza suas experiências sob os rótulos de "fracasso" e "sucesso". 

A escuta atenta das narrativas revela que aquilo que culturalmente chamamos de "fracasso", na verdade, não é senão um movimento de desistência subjetiva — um abandono do desejo, da espera ou daquilo que se esperava encontrar no Outro. 

O "fracasso", nesse sentido, não se sustenta como uma categoria real, mas como uma interpretação ressentida da interrupção de um processo simbólico.

O sujeito não fracassa — ele desiste. A desistência é o que se observa quando, diante da ausência do retorno imaginado, ele cede seu desejo, retira seu investimento e se posiciona como vítima de um destino que o frustrou.

 Este movimento é interno, estruturalmente psíquico, e não fruto das contingências externas. O fracasso, então, é um nome fantasia dado à desistência.

Por outro lado, o "sucesso" — categoria tantas vezes idealizada como ápice de um trajeto — revela outra face na clínica. 

E aqui uma investigação etimológica se faz produtiva. A palavra "sucesso" vem do latim successus, particípio passado de succedere, que significa “vir depois”, “seguir-se”, “ocorrer”. 

A origem da ideia, portanto, remete a um acontecimento posterior, algo que sobrevém — não uma glória em si, mas uma consequência.

Entretanto, se formos além da etimologia e considerarmos o sucesso como o momento em que o sujeito “cai do grupo dos comuns”, adentramos num território sensível. 

O sucesso, quando vivido como exceção, pode funcionar como um evento traumático. Tal como o sintoma, o sucesso isola. Ele separa. Ele distingue. E, portanto, faz cair: cair da massa, cair da expectativa comum, cair da identificação com os pares.

Em Lacan, o sujeito que sustenta o desejo arrisca. E aquele que realiza algo de significativo, também paga um preço. 

O sucesso, nesse cenário, não é gozo pleno, mas uma queda simbólica: uma separação do laço narcísico que o sujeito mantinha com o grupo, com a média, com o ordinário. 

A dor que advém do sucesso não é a dor da perda, mas a dor da solidão da conquista.

Três Vínculos Clínicos Exemplares

1. A mulher que abriu mão da maternidade e foi taxada de fracassada

Uma paciente de 42 anos, empresária bem-sucedida, trazia como queixa recorrente o julgamento familiar por não ter tido filhos. 

Considerava-se fracassada "como mulher". Ao longo da análise, descobrimos que sua "falha" era, na verdade, uma escolha ética do desejo: ela nunca quis a maternidade. 

Não havia fracasso, mas sim uma desistência de agradar ao Outro — travestida de fracasso pela cobrança social.

2. O músico que teve sucesso e entrou em depressão

Um paciente jovem, após alcançar notoriedade nacional como músico, desenvolveu um quadro de apatia e isolamento. Descobrimos que o “sucesso” havia lhe arrancado do grupo de amigos e familiares que passaram a tratá-lo com hostilidade ou inveja. 

Ele se via fora do lugar — o sucesso o fez cair do pertencimento. Sua dor não era do sucesso, mas da perda do vínculo simbólico com o grupo primário.

3. O analista iniciante que abandonou a clínica por “fracasso” de público

Um recém-formado em psicanálise procurou supervisão após encerrar sua clínica por falta de pacientes. 

Sentia-se um fracasso. Em análise, revelou que havia desistido antes de estruturar sua escuta, e que sua urgência de reconhecimento sabotava o tempo da formação. 

O que ele chamava de fracasso era, na verdade, a desistência de sustentar o vazio e a espera, elementos inerentes ao ofício analítico.

Conclusão

A psicanálise nos ensina a desmascarar os significantes mestres que organizam o psiquismo. O fracasso não é um destino, mas uma narrativa defensiva; o sucesso, por sua vez, não é uma benção universal, mas uma experiência de perda e separação. 

Entre o fracasso que não houve e o sucesso que isola, o que está em jogo é sempre a posição do sujeito frente ao seu desejo, sua castração e seu laço com o Outro.

Como analistas, cabe-nos escutar as desistências travestidas de fracasso e acolher as dores silenciosas do sucesso — sem julgamento, mas com o rigor de quem sabe que não há sentido definitivo no que o sujeito diz de si, apenas construções simbólicas em busca de sustentação.


Referências

Lacan, J. (1998). O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.


Freud, S. (1914). Recordar, Repetir e Elaborar. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XII.


Dunker, C. I. L. (2011). Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica. São Paulo: Annablume.


Nasio, J.-D. (1997). Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Zahar.


Sobre o Autor


Elielberth Falcão é psicanalista clínico, professor e didata. Atua como professor de Psicanálise Contemporânea, é autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e Narcisismo num Compêndio Clínico, publicados pela Editora Santorini.

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