A vida adulta como máscara do infantil: entre a necessidade social e o retorno do recalcado

 


A vida adulta como máscara do infantil: entre a necessidade social e o retorno do recalcado

Introdução

Com frequência, a vida adulta é representada como a etapa da maturidade, da responsabilidade e da racionalidade. No entanto, a psicanálise nos ensina que o infantil não desaparece; ele permanece como uma dimensão estrutural do sujeito. Assim, a vida adulta pode ser compreendida como uma máscara que encobre, mas não elimina, o infantil que habita cada um de nós.

1. O infantil como estrutura permanente

Exegese psicanalítica
Para Freud (1905, 1915), o infantil não é apenas uma fase transitória do desenvolvimento, mas algo que se conserva no inconsciente. Desejos, fantasias e marcas da primeira infância permanecem vivos, ainda que recalcados. O inconsciente é atemporal: nele, o passado não deixa de existir, mas se atualiza em novas formas.

Aplicação clínica
Em análise, muitas vezes o adulto “sério” e “equilibrado” revela, em lapsos, sonhos ou sintomas, o infantil que insiste em retornar. Por exemplo, um paciente que, em sala de aula, diante de uma interpretação, responde com uma risada aparentemente “boba” pode estar deixando escapar algo do infantil recalcado, que a máscara adulta não consegue conter.

2. A persona social como máscara necessária

Exegese psicanalítica
Jung (1928) introduziu a noção de persona como a máscara social que o indivíduo utiliza para se adaptar às exigências coletivas. Essa máscara não é necessariamente uma falsificação, mas uma proteção: ela permite o convívio social, ao mesmo tempo em que encobre aspectos íntimos, muitas vezes ligados ao infantil.

Aplicação clínica
Em supervisões, é comum ver analistas iniciantes apresentarem suas observações com uma postura rígida, formal, como se estivessem “adultizando” demais sua fala. Aos poucos, no espaço analítico e didático, o infantil emerge em associações mais espontâneas, piadas sutis ou comparações criativas. Isso mostra que a máscara adulta protege, mas também limita.

3. O retorno do reprimido: quando a máscara cai

Exegese psicanalítica
Freud (1914) já advertia que “o infantil retorna”. O recalque não é definitivo; ele exige um gasto contínuo de energia psíquica. Quando a máscara da vida adulta se fragiliza — em crises, perdas, paixões ou mesmo em momentos de criatividade — o infantil irrompe, revelando sua permanência. Winnicott (1971) amplia essa ideia ao destacar a importância da brincadeira e da criatividade como expressões legítimas do infantil que precisa sobreviver na vida adulta.

Aplicação clínica
Em sala de aula, um aluno universitário, diante de uma tarefa, pode reagir com ansiedade desproporcional, como se fosse uma criança diante da avaliação de um pai exigente. Essa atuação mostra que, sob a máscara da vida adulta, o infantil ainda pulsa, pedindo escuta e elaboração.

Conclusão

A vida adulta, longe de significar a superação do infantil, constitui uma máscara necessária para a convivência social. No entanto, essa máscara nunca elimina o infantil: apenas o oculta. A psicanálise nos lembra que o infantil é estrutural, reaparecendo nos sintomas, nos sonhos, nas brincadeiras, na criatividade e até nas crises. Reconhecer essa coexistência entre máscara e infantil não significa infantilizar o adulto, mas sim compreender que a subjetividade é atravessada por camadas que jamais se anulam.

Assim, viver não é eliminar o infantil, mas aprender a dialogar com ele, deixando que encontre espaços legítimos de expressão.


Referências

  • FREUD, S. (1905). Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

  • FREUD, S. (1914). Recordar, repetir e elaborar.

  • FREUD, S. (1915). O inconsciente.

  • JUNG, C. G. (1928). A função transcendente.

  • WINNICOTT, D. W. (1971). O brincar e a realidade.


Sobre o Autor

Elielberth Falcão – Psicanalista didata, professor de Psicanálise Contemporânea, autor dos livros: Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e  Narcisismo num Compêndio Clínico pela Editora Santorini. Acadêmico em Psicologia pela Universidade UNIGRANRIO-Afya 

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