Gozo e Dor: Quando o Sofrimento se Torna Satisfação

 

Gozo e Dor: Quando o Sofrimento se Torna Satisfação

Por Elielberth Falcão

Na vida cotidiana, é comum ouvirmos frases como: "Eu sei que isso me faz mal, mas não consigo parar" ou "É como se eu procurasse o sofrimento". A psicanálise, especialmente em sua vertente lacaniana, tem uma palavra para essa experiência paradoxal de encontrar prazer no sofrimento: gozo (jouissance). Diferente do prazer moderado do princípio do prazer descrito por Freud, o gozo se refere a um tipo de satisfação que vai além — e frequentemente inclui dor.

O que é o Gozo?

Para Lacan, o gozo é uma satisfação que ultrapassa o limite do prazer. É aquilo que se busca mesmo que faça sofrer. Um excesso. Uma transgressão do limite imposto pelo princípio do prazer, que visa evitar o desprazer. O gozo, portanto, não é prazer — é mais, e por isso pode se confundir com a dor.

Freud já havia intuído isso ao falar sobre as neuroses de repetição e o “além do princípio do prazer” (1920), onde o sujeito retorna, compulsivamente, a experiências que o fizeram sofrer, como se houvesse um desejo inconsciente de reencenar a dor para obter, de modo obscuro, certa satisfação.

A Dor como Forma de Gozo

No campo clínico, encontramos frequentemente sujeitos que, mesmo reconhecendo o sofrimento que vivem, permanecem presos a padrões repetitivos, como relacionamentos abusivos, autossabotagens ou sintomas persistentes. Essa repetição não é casual. Ela atende a uma lógica inconsciente de gozo.

Exemplo clínico

Uma paciente, 32 anos, em análise há oito meses, relatava que todos os seus relacionamentos amorosos acabavam em rejeição. Escolhia homens indisponíveis emocionalmente, com histórico de traições. Mesmo após rupturas dolorosas, buscava contato novamente. Quando questionada sobre o motivo, dizia: “Sei que ele não presta, mas quando estou com ele, me sinto viva”.

A análise revelou que havia um padrão construído na infância, marcado por uma relação distante com o pai, cuja atenção só era recebida quando ela adoecia ou cometia algum erro. Ou seja, o amor vinha acompanhado de dor. O sintoma amoroso, então, não era apenas sofrimento: era gozo na repetição da cena infantil, onde o afeto do outro só vinha pelo sofrimento.

Nesse caso, a dor era o caminho inconsciente da paciente para acessar o amor. Ela não amava o parceiro atual, mas o lugar que ele ocupava na cena psíquica repetida.

Por que isso importa?

Compreender que o sujeito pode gozar na dor transforma a maneira como escutamos o sofrimento na clínica. Nem todo sofrimento quer ser curado. Há sofrimentos que são formas de sustentação do sujeito, porque estão ligados à estrutura do desejo, da falta e da história. O trabalho analítico, portanto, não visa eliminar o gozo, mas deslocá-lo, possibilitando que o sujeito encontre outras formas de desejar — menos destrutivas e mais éticas.

Referências:

  • FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: Obras Completas, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

  • LACAN, J. O Seminário, Livro 7: A Ética da Psicanálise (1959-60). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

  • MILLER, J.-A. O parceiro-sintoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

  • SAFATLE, V. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.


Sobre o autor:

Elielberth Falcão é psicanalista didata, professor e escritor. É autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e Narcisismo num Compêndio Clínico (Editora Santorini). Atua como docente em diversos cursos de formação psicanalítica e desenvolve pesquisas nos campos da ética do desejo, sofrimento psíquico e estruturas narcísicas. Atualmente é graduando em Psicologia pela Universidade Unigranrio.



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