Quando o Nome é Dito, o Monstro se Vai: Medo e Angústia na Clínica Psicanalítica

 

Quando o Nome é Dito, o Monstro se Vai: Medo e Angústia na Clínica Psicanalítica


Introdução

Freud, em sua meticulosa observação dos afetos, já indicava que o medo é uma resposta ligada a um objeto externo, concreto e reconhecível. Em contraste, a angústia se apresenta como um afeto sem objeto claro. Esta distinção é essencial para o manejo clínico, pois a forma como o sujeito lida com cada um desses afetos denuncia a estrutura de seu sofrimento e orienta o percurso do tratamento.

Jacques Lacan, por sua vez, oferece uma formulação precisa e perturbadora: "A angústia é o único afeto que não engana" (Le Séminaire, Livre X – L’Angoisse, 1962–1963). Essa frase — poderosa e desconcertante — nos alerta que, ao contrário de outros afetos que podem encobrir ou mascarar verdades subjetivas, a angústia revela, sem disfarce, uma ruptura entre o sujeito e seu desejo.


Medo: Quando o Nome é Dito

No campo do medo, o objeto está nomeado. Trata-se, portanto, de uma experiência de defesa. Por exemplo, L. Von N, 28 anos, chega ao consultório afirmando:

“Tenho medo de dirigir.”
A análise revela que o medo não se trata apenas de uma questão técnica ou fóbica, mas guarda uma memória inconsciente de um acidente sofrido na infância, onde seu pai, bêbado, capotou o carro da família.

Exemplo clínico (L.Von N):
O medo de dirigir é uma espécie de metonímia da castração — o carro é o objeto fóbico, mas o que realmente o aterroriza é a impotência do pai que perdeu o controle. O medo, neste caso, tem nome, história e roteiro. Pode ser deslocado, elaborado e até superado à medida que o objeto se simboliza.

Freud observa em Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926):

“O medo sempre se refere a algo. A ansiedade, ao contrário, pode estar ali sem objeto.”
(Freud, S., 1926/1976, Edição Standard Brasileira, Vol. XX).


Angústia: O Irrepresentável Que Não Cessa

Diferentemente do medo, a angústia invade o sujeito quando ele não sabe de onde vem o mal-estar. É o sentimento de uma ameaça difusa, sem objeto — e por isso mesmo, insuportável. Lacan enfatiza isso com sua famosa frase:

"A angústia é o único afeto que não engana."
(Lacan, J. Le Séminaire, Livre X – L’Angoisse, 1962–63)

Exemplo clínico (C. Von P):
C. Von P, 32 anos, chega relatando que sente uma pressão no peito toda vez que está sozinha em casa, principalmente à noite. Quando perguntada se tem medo de algo, responde:
“Não. Não é medo. É como se algo fosse acontecer. Mas eu não sei o quê.”

Durante o processo analítico, emergem fragmentos de sua infância em que a ausência materna foi constante, e o silêncio da casa carregava uma presença ameaçadora, inominável.

A angústia de C. Von P não aponta para um objeto específico. O sujeito angustiado, como diz Lacan, está “à beira do real”, em contato com algo que escapa à simbolização — e justamente por isso, angustia.


Clínica da Nomeação: Medo que Vira Angústia, Angústia que Vira Palavra

O trabalho clínico exige que escutemos essas manifestações com cuidado: nem todo medo é apenas medo, nem toda angústia é destituída de sentido. O manejo psicanalítico permite, muitas vezes, que a angústia se converta em palavra, e que o medo, ao ser nomeado, perca seu poder fantasmático.

Dizer “tenho medo de falhar” é muito diferente de viver em angústia constante sem saber de quê. E é aí que o analista entra: como alguém que acolhe o indizível até que ele se deixe dizer.


Considerações Finais

No setting analítico, reconhecer a diferença entre medo e angústia não é um exercício teórico, mas clínico. O medo pode ser enfrentado, pois é nomeado; a angústia precisa ser atravessada, pois é sinal de que algo essencial está em jogo — o desejo do sujeito. E como bem nos alerta Lacan, a angústia não mente. Ela é, por vezes, a última verdade possível.


Elielberth Falcão
Psicanalista didata, escritor, professor de Psicanálise e acadêmico de Psicologia na Universidade Unigranrio Afya. Autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e NARCISISMO num COMPÊNDIO CLÍNICO, ambos pela Editora Santorini, membro do Instituto IVP-BRASIL. Atua como clínico e supervisor em Psicanálise com experiência na condução de casos complexos e formação de analistas.


Referências Bibliográficas

  • Freud, S. (1926). Inibições, Sintomas e Ansiedade. ESB, Vol. XX. Rio de Janeiro: Imago.

  • Lacan, J. (1962–1963). Le Séminaire, Livre X – L’Angoisse. Paris: Seuil.

  • Miller, J.-A. (1997). Introdução à Leitura de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

  • Nasio, J.-D. (1999). Cinco Lições sobre a Teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Zahar.



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