Persona: O Ser Sendo Não-Sendo

 

Persona: O Ser Sendo Não-Sendo

C. G. Jung, em sua teoria da Persona, afirma que o sujeito, ao longo da vida, constrói máscaras sociais para interagir com o mundo. A persona é legítima até certo ponto — todos precisamos desempenhar papéis. O problema surge quando o sujeito se identifica com essa máscara, passando a confundir o que apresenta com o que verdadeiramente é.

Nas palavras de Jung:

“A persona é aquele sistema de adaptações que resulta da demanda da coletividade. É um compromisso entre o indivíduo e a sociedade.”

Quando essa persona é estruturada sobre o saber, sobre o acúmulo de referências e diplomas, corre-se o risco de criar uma imagem tão sólida e impenetrável que o inconsciente já não consegue atravessar.

O sujeito torna-se um “grande sabedor” que nada sente de si. Ele é “não sendo”.

A Falta como Fundamento: Lacan e a Estrutura

Jacques Lacan contribui para esse debate ao recolocar o conceito de falta como estrutura fundante do sujeito. Em seu ensino, a inteligência não se define por acumulação simbólica, mas pela relação do sujeito com sua falta constitutiva.

Lacan formula:

“O saber não é do sujeito, mas do Outro.”

Ao localizar o saber no campo do Outro, Lacan nos obriga a reconhecer que o sujeito que se “enche” de cultura para evitar a angústia está justamente operando na via da resistência simbólica. A cultura pode servir como objeto fálico, preenchendo ilusoriamente a falta.

Esse sujeito pode até ir bem na prova, mas não vai bem na vida.

Exemplo Clínico: O Intelectual Imóvel

Em atendimento clínico, um paciente apresentava uma retórica impecável. Recitava Lacan com desenvoltura, citava Foucault e Winnicott como quem narra receitas de bolo. Contudo, seu discurso era absolutamente impessoal. Referia-se aos conceitos como escudo e jamais como espelho.

A análise estagnava. A cada interpretação, o paciente respondia com mais um parágrafo de filosofia. Somente quando conseguimos tocar sua relação com o pai, sua identificação narcísica com a imagem do “homem culto”, é que o silêncio apareceu. E, com o silêncio, a dor. E, com a dor, a possibilidade de começar.

A resistência à experiência emocional só caiu quando sua “inteligência simbólica” foi desnudada como defesa.

Cultura e Inteligência: Dissociações Necessárias

Há um tipo de inteligência que decorre do reconhecimento da própria ignorância. Há outro tipo que tenta dominá-la. A cultura pode ser alimento para a alma — mas também pode ser uma barricada contra o inconsciente.

A verdadeira inteligência, diríamos com Winnicott, é aquela que suporta a deformação do eu na experiência do viver. E essa inteligência não está nos livros, mas na travessia.

Conclusão

Nem sempre o culto é inteligente. Nem sempre o letrado sabe viver. A cultura pode ser armadura, e a inteligência, uma rendição à vulnerabilidade. A psicanálise nos ensina que o saber que cura não é o saber que se ostenta, mas aquele que se experimenta — no corpo, no sintoma e na fala que se quebra.

A análise, portanto, é o lugar de desmontar as máscaras, desarmar a persona, e permitir que o sujeito, enfim, seja.


Referências Bibliográficas

  • Freud, S. (1924). Neurose e Psicose. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Imago.

  • Jung, C.G. (1953). A Psicologia do Inconsciente. Vozes.

  • Lacan, J. (1966). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

  • Winnicott, D.W. (1965). O Brincar e a Realidade. Imago.

  • Roudinesco, E. (1994). Jacques Lacan: Esboço de uma Vida, História de um Sistema de Pensamento. Zahar.


Sobre o Autor

Elielberth Falcão é psicanalista clínico, didata e professor. Atua na formação de psicanalistas, ministra aulas em diversas instituições e é autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e Narcisismo num Compêndio Clínico. É Universitário em Psicologia na Universidade Unigranrio, Campus-Caxias-RJ.

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