O mal-entendido do diagnóstico em psicanálise
O mal-entendido do diagnóstico em psicanálise
É comum que estudantes e iniciantes na escuta clínica questionem o papel do diagnóstico na prática psicanalítica. Afinal, em um mundo dominado pelo discurso médico e pelas classificações categóricas do sofrimento, a psicanálise parece um estranho no ninho.
No entanto, é justamente esse deslocamento que constitui a singularidade do método analítico. O psicanalista não diagnostica no sentido tradicional, porque o que se escuta na clínica não é um quadro nosográfico, mas um sujeito dividido, marcado pela linguagem, estruturado pela falta e pelo desejo.
Diferentemente das abordagens que tomam os sintomas como sinais de uma patologia objetiva, a psicanálise entende o sintoma como uma formação do inconsciente, uma tentativa singular do sujeito de responder ao real.
O sujeito, não o objeto
Para Lacan, não há como transformar a psicanálise em ciência nos moldes das ciências naturais, pois falta-lhe um objeto no sentido clássico. Ele escreve:
“A psicanálise jamais se tornará uma ciência positiva porque o seu objeto não é dado, não é visível, não é mensurável. O único modo de ‘ter’ um objeto é reconhecendo sua ausência.”
(Lacan, 1966/1998)
O “objeto” da psicanálise — se é que se pode usar tal termo — está justamente no que falta, no que escapa à apreensão objetiva. A verdade do sujeito não é toda dizível, e, por isso, o analista escuta aquilo que se diz além do que é dito.
A ética da não classificação
Diagnosticar é, em certa medida, nomear e fixar. Na escuta psicanalítica, porém, o que está em jogo é o movimento, o deslizamento do desejo, o enigma da fala. Reduzir o sujeito a um rótulo é interromper prematuramente sua travessia.
Por isso, a posição ética do analista é a de suportar a incerteza, escutar sem classificar, manter aberta a via da subjetivação. Em lugar de aplicar diagnósticos prontos, o analista se dispõe a escutar a singularidade de cada história, cada sintoma, cada construção subjetiva.
Conclusão
A psicanálise não renega a existência do sofrimento, nem a gravidade dos quadros clínicos. Mas ela se recusa a reduzir o sujeito à lógica da patologia. Seu compromisso é com o inconsciente, com a verdade que se revela aos pedaços, com a ética da escuta e com o respeito à singularidade do sujeito.
Dizer que o psicanalista não diagnostica é, portanto, uma afirmação de princípio e de método: trata-se de manter a escuta aberta àquilo que não se encaixa em nenhuma classificação. E isso exige coragem, formação contínua e fidelidade ao discurso analítico.
Referências bibliográficas
Lacan, J. (1998). Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Texto original: “La science et la vérité”, 1966).
Miller, J.-A. (2002). La Psicosis y el Discurso Analítico. Buenos Aires: Paidós.
Safra, G. (Org.). (2003). Dicionário de Psicanálise. São Paulo: Artmed.
Sobre o autor
Elielberth Falcão é psicanalista clínico, didata e supervisor. Professor de Psicanálise com experiência em diversas instituições, é autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos (Editora Santorini) e Narcisismo num Compêndio Clínico (Editora Santorini). Atualmente, cursa Psicologia na Universidade Unigranrio, onde aprofunda suas investigações teórico-clínicas sobre a subjetividade e o laço social.
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