Somos frutos do meio que recalca
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Somos frutos do meio que recalca
Por Elielberth Falcão
A clássica máxima de que “somos frutos do meio” atravessou séculos como explicação simplificada para o modo como o sujeito se constitui. Contudo, o século XXI, com suas complexidades técnicas e simbólicas, impõe uma releitura dessa fórmula. Não basta mais dizer que o sujeito é moldado pelo meio social; é preciso interrogar qual meio, quais mediações e quais recalques esse meio impõe.
Hoje, quando o saber se expande pela inteligência artificial, pela acessibilidade universitária e pelo excesso de informação, percebemos um paradoxo: quanto mais o saber se aproxima, mais o sujeito se retrai. Isso nos leva a formular algo mais radical: não somos apenas frutos do meio. Somos, sobretudo, frutos do medo.
O medo como operador psíquico
Esse medo não é qualquer medo. É um medo estrutural, primário, fundante. Freud já apontava, em Inibição, Sintoma e Angústia, que o medo é o afeto que nasce do perigo de perda — perda do amor do outro, perda do reconhecimento, perda da consistência do eu. Lacan, por sua vez, o relaciona ao encontro com o real: há medo quando se toca o que não pode ser simbolizado, o que escapa ao controle do discurso.
Na clínica, esse medo aparece como resistência ao saber de si. Um analisante pode passar anos relatando fatos sem se implicar, falando de sua história com afeto congelado. Ao se aproximar de um ponto traumático, muitas vezes se cala ou muda de assunto. Isso é medo — medo de se encontrar com o que foi recalcado, medo do desejo, medo da própria verdade.
Pessoas que evitam crescer, estudar, se aprofundar, muitas vezes não o fazem por preguiça, mas por medo de sair do lugar do não-saber, que é confortável porque preserva as identificações com o Outro. O sujeito teme saber que poderia ser livre, porque isso o colocaria diante da falta que estrutura o desejo.
Exemplos clínicos do medo que recalca
O medo de ser autônomo – Uma paciente de 30 anos, já financeiramente estável, recusava-se a sair da casa dos pais. Ao ser investigada essa posição, revelou-se o medo de ser rejeitada pela mãe caso ela ganhasse vida própria. O meio (família) produzia um ideal de "boa filha que cuida", e o medo inconsciente da perda desse lugar a impedia de avançar.
O medo de saber o que deseja – Um adolescente, talentoso para música, recalcava seu desejo artístico para seguir a carreira jurídica, como o pai. Na análise, revelou que saber o que queria — e sustentar esse desejo — era insuportável, pois isso significaria decepcionar o pai e enfrentar o mundo sem a proteção do ideal herdado.
Nestes casos, o medo não é acessório: é o núcleo da repetição. O sujeito repete o que é esperado, não porque quer, mas porque não pode — ainda — desejar algo diferente.
O meio que recalca: um Outro que impede o desejo
Freud mostrou que o recalque é necessário para a vida em sociedade. Mas o que vemos atualmente é que o próprio meio passou a operar como um agente ativo do recalque. E o mais curioso: isso ocorre mesmo em meios aparentemente libertadores.
Exemplos disso:
Ambientes religiosos moralistas que suprimem a sexualidade do sujeito em nome da pureza, produzindo culpa crônica.
Ambientes acadêmicos elitistas, que ridicularizam quem ousa pensar fora do cânone, produzindo o recalque do pensamento criativo.
Redes sociais, que expõem o sujeito a uma vigilância constante do olhar do Outro, fazendo com que ele recalque impulsos autênticos para manter uma imagem idealizada.
Esses são meios que produzem medo como política afetiva. São meios que recalcam, não apenas por imposição, mas porque oferecem ao sujeito um lugar de gozo no próprio recalque. O sujeito não deseja mais saber, deseja ser aceito. Não deseja mais realizar, deseja performar.
Conclusão: do recalque ao desejo
Quando dizemos que somos frutos do meio que recalca, estamos afirmando que a subjetividade contemporânea se organiza mais pelo medo do que pela influência externa direta. E que o recalque — longe de ser um resíduo do passado — está mais ativo do que nunca, agora mediado por dispositivos simbólicos, sociais e tecnológicos.
A psicanálise, nesse cenário, permanece como ato subversivo: não quer adaptar o sujeito ao meio, mas fazê-lo suportar seu desejo para além do medo. Ao tocar o recalque, o sujeito pode começar a escolher. E é nesse ponto que ele deixa de ser fruto do medo — e passa a ser autor de si.
Elielberth Falcão é psicanalista clínico didata, graduando em Psicologia pela UNIGRANRIO, professor de Psicanálise Contemporânea e autor do livro Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário