O Silêncio Manifesto: O Dizer que se Assemelha ao "Dito Não Dito"
Na clínica psicanalítica, o silêncio nunca é apenas a ausência de palavras. Ele é um ato, um discurso sem som, carregado de significados que emergem na relação analítica. Para compreendê-lo, é necessário reconhecer suas nuances e a maneira como ele se apresenta no discurso do analisando.
O Silêncio Manifesto
O silêncio, quando manifesto, torna-se um elemento comunicacional fundamental. Em sessão, ele pode indicar resistência, angústia, defesa ou comunicação inconsciente. A maneira como ele se instala na transferência revela muito sobre o psiquismo do sujeito.
Exemplo Clínico:
Uma paciente que, ao falar sobre sua infância, faz longas pausas e desvia o olhar pode estar indicando, sem palavras, um conteúdo traumático ou um ponto de recalque. Seu silêncio não é um vácuo, mas um enunciado que o analista precisa escutar naquilo que não é dito.
O Dizer que se Assemelha ao "Dito Não Dito"
A diferença entre dizer e dito é fundamental na perspectiva lacaniana. O dito é o conteúdo que já foi verbalizado, enquanto o dizer é um ato, um movimento que carrega uma intencionalidade e que pode estar impregnado de lapsos e omissões. O "dito não dito" corresponde àquilo que deveria ou poderia ter sido enunciado, mas que permaneceu recalcado ou suspenso.
Exemplo Clínico:
Um paciente, ao relatar um sonho recorrente, para abruptamente antes de mencionar um detalhe crucial. Ele fala sobre uma casa, mas não menciona quem mora nela. Esse "não-dito" pode apontar para um conteúdo que seu psiquismo ainda não está pronto para enfrentar.
O Silêncio como Forma de Expressão do Inconsciente
Na clínica, a interpretação do silêncio deve ser conduzida com cautela. Nem sempre ele aponta para uma recusa de fala; muitas vezes, é uma maneira de dizer o que não pode ser formulado em palavras. O analista, ao respeitar e interpretar esses silêncios, permite que o sujeito se aproxime gradualmente daquilo que seu inconsciente busca expressar.
Exemplo Clínico:
Um paciente que se cala ao ouvir a interpretação do analista pode estar processando uma associação inesperada. O silêncio aqui não é um bloqueio, mas um espaço onde o inconsciente opera.
Considerações Finais
O silêncio manifesto é um dizer que exige escuta atenta. Ele se insere na estrutura da linguagem e pode carregar conteúdos reprimidos, ansiedades ou resistências. O analista, ao considerar o silêncio como parte do discurso, possibilita ao sujeito a elaboração de suas angústias e a abertura para novas significantes.
Na Psicanálise, escutar é também escutar o que não é dito, porque é justamente nesse espaço do não-dito que se revela a verdade do sujeito.
Sobre o Autor
Elielberth Falcão é psicanalista Clínico didata, professor de Psicanálise e Acadêmico em Psicologia pela Universidade UNIGRANRIO/Campus-Caxias-RJ, escritor e pesquisador. Autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e Narcisismo num Compêndio Clínico, atualmente ministra aulas e palestras sobre Psicanálise Contemporânea e supervisão clínica.
Comentários
Postar um comentário